A fornada queimada e o elogio sincero

Quando todo elogio parece bajulação e toda correção parece ataque

Uma assadeira de metal vista de cima e inclinada, sozinha sobre o fundo vazio, com seis pães queimados, arrumados em duas fileiras de três. Os pães são quase pretos, com a casca rachada e farelos queimados em volta, e de três pães sobe um fio fino de fumaça. Em cima de cada pão há três cortes paralelos e inclinados, bem regulares, iguais de um pão para o outro. Esses cortes são desenhados em verde, o único elemento de cor viva da imagem. Não há ninguém, e não há nenhuma palavra escrita na imagem.
O pão queimou. O corte estava bem feito, e o Seu Álvaro viu o corte.

Esta é a terceira padaria da seção, e é outra padaria, com outras pessoas. O padeiro se chama Seu Álvaro, e o ajudante se chama Léo. Os dois capítulos anteriores mostraram como as pessoas passam a conhecer você. Este capítulo trata de uma coisa que sai de você para as outras pessoas, que é o elogio.

O capítulo da hamburgueria disse para você não esperar um elogio a cada entrega. Este capítulo não contradiz o capítulo da hamburgueria. Lá o assunto era o elogio que você recebe. Aqui o assunto é o elogio que você dá.

Lá vem o puxa-saco.
Se eu elogiar, vão achar que ele é melhor do que eu.
Ele só fez a obrigação. Por que eu ia elogiar?
Eu até achei bom. Só não falei nada.

A quarta frase é a mais comum das quatro. A pessoa reparou no trabalho bem feito, gostou, e guardou a opinião. Para quem fez o trabalho, um elogio guardado e um elogio que nunca existiu são a mesma coisa.

Elogiar é enxergar o esforço de uma pessoa e mostrar a essa pessoa que o esforço importa.

O ajudante que desconfiava de elogio

Os pães da imagem que abre este capítulo queimaram. Os riscos verdes são os cortes que o ajudante fez na massa antes de assar, e os cortes estavam bem feitos. Este capítulo é sobre a pessoa que olhou para essa assadeira e viu os cortes.

O padeiro-chefe da padaria da esquina era o Seu Álvaro. O Seu Álvaro era conhecido pelo pão, que tinha a casca dourada e o miolo leve. O Seu Álvaro trabalhava havia trinta anos com a mesma disciplina.

O ajudante novo do Seu Álvaro se chamava Léo. O Léo era rápido e tinha talento. Só que o Léo não conseguia reconhecer o mérito de ninguém. O Léo achava que elogiar era bajular. Quando o Léo via alguém receber um elogio, o Léo pensava “lá vem o puxa-saco”.

E quando alguém corrigia o Léo, o Léo ficava ofendido. “Estão dizendo que eu não sei trabalhar?” Para o Léo, todo elogio era teatro e toda correção era ataque. O Léo vivia se defendendo.

A fornada queimada

Um dia o Seu Álvaro saiu mais cedo e deixou uma fornada por conta do Léo. O Léo preparou tudo com cuidado. Depois o Léo se distraiu com o balcão, e o pão queimou.

No dia seguinte o Léo chegou tenso, esperando uma bronca. O Seu Álvaro disse outra coisa. “A fornada de ontem queimou, sim. Mas eu reparei que o formato das massas estava melhor. Você está caprichando mais no corte. Você está ficando com boa mão.”

O Léo ficou sem reação. O Léo esperava um julgamento, e recebeu um reconhecimento dentro do erro. O Seu Álvaro não fingiu que o pão estava bom. O Seu Álvaro disse a verdade sobre o pão, e disse também a verdade sobre o corte.

Aquela frase desmontou a defesa que o Léo carregava havia anos. O Léo entendeu que elogiar uma pessoa não é se rebaixar diante dessa pessoa.

O Seu Álvaro viu o pão queimado e viu o corte bem feito. O Seu Álvaro falou das duas coisas.

Um elogio por dia

Daquele dia em diante, o Léo começou a observar os colegas. O Léo reparou no padeiro mais novo, que acordava mais cedo para limpar o forno. O Léo reparou na atendente, que sabia de cor o nome dos clientes. O Léo reparou no entregador, que sorria mesmo nos dias de calor.

Aos poucos, o Léo passou a dizer o que via. “Bom trabalho hoje, Maria.” “Boa fornada, Tião, ficou bonita.” “Seu Álvaro, aquela mudança no fermento melhorou mesmo a textura.” O Léo falava sem exagero, e o Léo só falava do que tinha visto.

No começo os colegas estranharam. Depois os colegas perceberam que o Léo estava sendo sincero, e o clima da padaria mudou. As conversas ficaram mais leves, e o trabalho ficou mais entrosado.

O Léo percebeu que elogiar de vez em quando não bastava. O Léo passou a procurar, toda manhã, um motivo verdadeiro para elogiar pelo menos uma pessoa. Quanto mais o Léo reconhecia o trabalho dos colegas, mais os colegas se esforçavam sem ninguém mandar. O padeiro mais novo ficou mais cuidadoso, a atendente ficou mais segura, e o entregador começou a ajudar na limpeza.

As pessoas não trabalham só pelo salário. As pessoas trabalham também para sentir que o esforço valeu. O reconhecimento é o que avisa a pessoa de que o esforço valeu.

O que o Léo fazia não era manipulação. Um elogio falso, feito para conseguir alguma coisa, é bajulação, e as pessoas percebem a diferença.

Por que elogiar é tão difícil

Num time de tecnologia, no meio de tarefa, erro e prazo, quase ninguém para o que está fazendo para elogiar. E um “bom trabalho” depois de uma entrega difícil muda o dia de quem ouve. Um “o que você escreveu me poupou uma tarde” também muda.

Elogiar é difícil por um motivo antigo. A maioria das pessoas cresceu competindo, na escola e no trabalho. Quem cresceu competindo aprende que reconhecer o outro é ajudar o outro a passar na frente. “Se eu elogiar demais, vão achar que ele é melhor do que eu.”

Essa conta parece proteger você, e essa conta isola você. Quem reconhece o trabalho dos outros com sinceridade ganha uma coisa rara, que é ser uma pessoa querida e levada a sério ao mesmo tempo. Os colegas passam a citar o nome dessa pessoa em reuniões, em projetos e em contratações.

Em público e em particular

Sobra uma regra prática, que diz onde cada conversa deve acontecer.

Em público
  • O elogio
  • O crédito por uma ideia
  • O agradecimento por uma ajuda
Em particular
  • A correção do trabalho de uma pessoa
  • A discordância que pode constranger alguém
  • A conversa sobre o comportamento de uma pessoa

O capítulo do mestre Tonho mostrou a exceção a essa regra. Quando o problema é do time inteiro e precisa ser dito na frente de todos, a pessoa que fala começa pelo próprio erro.

Sem bajular

As quatro marcas da frase do Seu Álvaro

Um elogio com estas quatro marcas poupa você do medo de parecer puxa-saco.

O elogio é verdadeiro. O Seu Álvaro começou dizendo que a fornada tinha queimado.

O elogio é específico. O Seu Álvaro falou do corte. “Bom trabalho” já serve. “O seu corte está melhor” serve muito mais.

O elogio fala do trabalho. O Seu Álvaro elogiou o que o Léo fez, e não quem o Léo é.

O elogio não pede nada em troca. Depois do elogio, o Seu Álvaro não pediu nenhum favor ao Léo.

Elogie em público. Critique em particular.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre como você fala do trabalho dos outros.
abrir

Em toda entrevista você fala de outras pessoas, que são antigos colegas, professores e chefes. Quem entrevista presta atenção no espaço que essas pessoas ocupam nas suas histórias.

“Com quem você mais aprendeu até hoje?”

O avaliador técnico quer ver
  • Que você sabe dizer o que aprendeu, com detalhe
  • Que você reconhece quem sabia mais do que você
  • Que você usa até hoje o que aprendeu
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você dá o nome e o mérito à pessoa
  • Que você não diminui a pessoa para parecer maior
  • Que você agradeceu a essa pessoa
Boa resposta

“Com uma colega do meu primeiro emprego, a Sandra. A Sandra me ensinou a conferir o trabalho antes de entregar. A Sandra tinha uma lista de cinco perguntas colada no monitor, e eu copiei a lista. Eu uso essa lista até hoje. Quando eu saí daquele emprego, eu disse à Sandra que a lista tinha mudado o meu jeito de trabalhar.”

Resposta ruim

“Na verdade eu aprendi quase tudo sozinho, pesquisando.”

Essa resposta pode ser verdade em boa parte. Dita desse jeito, a resposta apaga todas as pessoas que ajudaram no caminho. Quem ouve imagina como essa pessoa vai falar do time daqui a um ano.

“Me fala de um colega que era melhor do que você em alguma coisa.”

Esta pergunta testa a conta da competição. Para quem acha que reconhecer o outro é perder espaço, esta pergunta é desconfortável.

O que eles querem saber
  • Se você consegue admirar sem inveja
  • Se você aprendeu alguma coisa com essa pessoa
  • Se você sabe dizer exatamente em que a pessoa era melhor
O que derruba
  • Não lembrar de ninguém
  • Elogiar a pessoa e emendar um defeito dela
  • Dizer que cada um tem o seu jeito, sem citar ninguém
Boa resposta

“Um colega de turma, o Renan, explicava as coisas muito melhor do que eu. Quando o Renan explicava, a turma entendia de primeira. Eu passei a prestar atenção em como o Renan fazia. O Renan sempre começava por um exemplo, antes de dizer a regra. Eu comecei a fazer a mesma coisa.”

Resposta ruim

“Tinha um colega que programava mais rápido do que eu, mas o código dele era bem bagunçado.”

O “mas” desfaz o elogio. A pergunta pedia um reconhecimento, e a resposta deu um reconhecimento com desconto.

“Como você reconhece o bom trabalho de um colega?”

Esta pergunta é direta, e pouca gente tem uma resposta com exemplo.

Boa direção
  • Dizer para a pessoa, e dizer o que exatamente ficou bom
  • Dar o crédito na frente de quem lidera
  • Agradecer por escrito, quando a ajuda foi grande
Direção ruim
  • “Eu não sou muito de elogiar”
  • Elogiar só quem está acima de você
  • Achar que elogiar é papel de chefe
Boa resposta

“Eu digo para a pessoa, e eu tento dizer o que exatamente ficou bom. Em vez de ‘ficou legal’, eu digo ‘o seu passo a passo me poupou uma tarde’. E quando a ideia que deu certo foi de outra pessoa, eu digo de quem foi a ideia, na frente de quem lidera o time.”

Resposta ruim

“Eu não sou muito de elogiar. Eu acho que cada um sabe o valor que tem.”

O engano dessa resposta é achar que as pessoas sabem. Uma pessoa só fica sabendo que o trabalho serviu quando alguém conta.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que reconhecer alguém parece difícil.
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Um colega fez um trabalho bom, e você não disse nada

Esta situação é a quarta frase do começo do capítulo. O elogio existiu dentro da sua cabeça, e o elogio parou ali.

Esperam de você
  • Que você diga no mesmo dia
  • Que você diga o que exatamente ficou bom
  • Que você diga em público, quando couber
Não esperam de você
  • Um elogio exagerado
  • Um elogio seguido de um pedido
  • Que você espere uma ocasião especial
O que dizer

“O jeito como você organizou aquela tela me ajudou. Eu achei o que eu precisava em dois cliques.”

Essa frase leva dez segundos para ser dita. A pessoa que ouve costuma lembrar dessa frase por semanas.

A ideia que deu certo foi de outra pessoa, e o elogio veio para você

Essa situação acontece muito em reunião. Quem lidera agradece a você por uma coisa que um colega pensou. Ficar quieto parece inofensivo. Só que o colega está na sala, ouvindo.

Esperam de você
  • Que você diga de quem foi a ideia, na hora
  • Que você diga o que a pessoa fez
  • Que você fique com a parte que foi sua, e só com essa parte
Não esperam de você
  • Que você aceite o elogio calado
  • Que você corrija depois, em particular, quando ninguém mais ouve
  • Que você recuse o elogio inteiro, por falsa modéstia
O que dizer

“Obrigado. A ideia de separar em duas etapas foi da Júlia. Eu fiz a parte da tela.”

Dar o crédito a quem merece é o elogio que as pessoas mais demoram a esquecer.

Você precisa corrigir o trabalho de uma pessoa que também acertou

Esta é a situação do Seu Álvaro com a fornada. O erro existe e precisa ser dito. E existe também uma coisa bem feita no mesmo trabalho.

Esperam de você
  • Que você fale a sós com a pessoa
  • Que você diga o erro com clareza, sem amaciar
  • Que você diga também o que estava bom, se for verdade
Não esperam de você
  • Um elogio inventado para adoçar a crítica
  • A correção feita na frente do time
  • Só o elogio, escondendo o erro
O que dizer

“O relatório saiu com dois totais errados, e esses totais precisam ser corrigidos hoje. A parte dos gráficos ficou muito clara, e eu quero usar esse formato nos próximos relatórios.”

O Seu Álvaro não inventou o elogio para suavizar a bronca. O corte do Léo estava mesmo melhor. Quando não existe nada de bom para dizer, a correção vai sozinha.

O que muda daqui em diante

Elogiar
Antes
Bajular
Agora
Dizer a uma pessoa, com verdade, o que ficou bom no trabalho dessa pessoa
Reconhecer um colega
Antes
Ajudar o colega a passar na sua frente
Agora
Ganhar o respeito do colega e de quem está em volta
Um elogio guardado
Antes
Um elogio
Agora
Nada. A outra pessoa nunca ficou sabendo
“Só fez a obrigação”
Antes
Motivo para não dizer nada
Agora
Um trabalho bem feito, que merece ser visto
Um erro
Antes
Motivo para esquecer o que estava bom
Agora
Uma coisa a corrigir, ao lado de outra coisa a reconhecer

O jantar mostrou que as pessoas precisam conhecer você. O jardim mostrou que as pessoas reparam primeiro no jeito como você trata os outros. A padaria do Seu Álvaro mostra a terceira parte. As pessoas falam bem de quem reconhece, com verdade, o trabalho das outras pessoas.

Quem dedica tempo a reconhecer o trabalho dos outros constrói o tipo de reputação que abre portas em silêncio.