A fornada queimada e o elogio sincero
Quando todo elogio parece bajulação e toda correção parece ataque

Esta é a terceira padaria da seção, e é outra padaria, com outras pessoas. O padeiro se chama Seu Álvaro, e o ajudante se chama Léo. Os dois capítulos anteriores mostraram como as pessoas passam a conhecer você. Este capítulo trata de uma coisa que sai de você para as outras pessoas, que é o elogio.
O capítulo da hamburgueria disse para você não esperar um elogio a cada entrega. Este capítulo não contradiz o capítulo da hamburgueria. Lá o assunto era o elogio que você recebe. Aqui o assunto é o elogio que você dá.
A quarta frase é a mais comum das quatro. A pessoa reparou no trabalho bem feito, gostou, e guardou a opinião. Para quem fez o trabalho, um elogio guardado e um elogio que nunca existiu são a mesma coisa.
Elogiar é enxergar o esforço de uma pessoa e mostrar a essa pessoa que o esforço importa.
O ajudante que desconfiava de elogio
Os pães da imagem que abre este capítulo queimaram. Os riscos verdes são os cortes que o ajudante fez na massa antes de assar, e os cortes estavam bem feitos. Este capítulo é sobre a pessoa que olhou para essa assadeira e viu os cortes.
O padeiro-chefe da padaria da esquina era o Seu Álvaro. O Seu Álvaro era conhecido pelo pão, que tinha a casca dourada e o miolo leve. O Seu Álvaro trabalhava havia trinta anos com a mesma disciplina.
O ajudante novo do Seu Álvaro se chamava Léo. O Léo era rápido e tinha talento. Só que o Léo não conseguia reconhecer o mérito de ninguém. O Léo achava que elogiar era bajular. Quando o Léo via alguém receber um elogio, o Léo pensava “lá vem o puxa-saco”.
E quando alguém corrigia o Léo, o Léo ficava ofendido. “Estão dizendo que eu não sei trabalhar?” Para o Léo, todo elogio era teatro e toda correção era ataque. O Léo vivia se defendendo.
A fornada queimada
Um dia o Seu Álvaro saiu mais cedo e deixou uma fornada por conta do Léo. O Léo preparou tudo com cuidado. Depois o Léo se distraiu com o balcão, e o pão queimou.
No dia seguinte o Léo chegou tenso, esperando uma bronca. O Seu Álvaro disse outra coisa. “A fornada de ontem queimou, sim. Mas eu reparei que o formato das massas estava melhor. Você está caprichando mais no corte. Você está ficando com boa mão.”
O Léo ficou sem reação. O Léo esperava um julgamento, e recebeu um reconhecimento dentro do erro. O Seu Álvaro não fingiu que o pão estava bom. O Seu Álvaro disse a verdade sobre o pão, e disse também a verdade sobre o corte.
Aquela frase desmontou a defesa que o Léo carregava havia anos. O Léo entendeu que elogiar uma pessoa não é se rebaixar diante dessa pessoa.
O Seu Álvaro viu o pão queimado e viu o corte bem feito. O Seu Álvaro falou das duas coisas.
Um elogio por dia
Daquele dia em diante, o Léo começou a observar os colegas. O Léo reparou no padeiro mais novo, que acordava mais cedo para limpar o forno. O Léo reparou na atendente, que sabia de cor o nome dos clientes. O Léo reparou no entregador, que sorria mesmo nos dias de calor.
Aos poucos, o Léo passou a dizer o que via. “Bom trabalho hoje, Maria.” “Boa fornada, Tião, ficou bonita.” “Seu Álvaro, aquela mudança no fermento melhorou mesmo a textura.” O Léo falava sem exagero, e o Léo só falava do que tinha visto.
No começo os colegas estranharam. Depois os colegas perceberam que o Léo estava sendo sincero, e o clima da padaria mudou. As conversas ficaram mais leves, e o trabalho ficou mais entrosado.
O Léo percebeu que elogiar de vez em quando não bastava. O Léo passou a procurar, toda manhã, um motivo verdadeiro para elogiar pelo menos uma pessoa. Quanto mais o Léo reconhecia o trabalho dos colegas, mais os colegas se esforçavam sem ninguém mandar. O padeiro mais novo ficou mais cuidadoso, a atendente ficou mais segura, e o entregador começou a ajudar na limpeza.
As pessoas não trabalham só pelo salário. As pessoas trabalham também para sentir que o esforço valeu. O reconhecimento é o que avisa a pessoa de que o esforço valeu.
O que o Léo fazia não era manipulação. Um elogio falso, feito para conseguir alguma coisa, é bajulação, e as pessoas percebem a diferença.
Por que elogiar é tão difícil
Num time de tecnologia, no meio de tarefa, erro e prazo, quase ninguém para o que está fazendo para elogiar. E um “bom trabalho” depois de uma entrega difícil muda o dia de quem ouve. Um “o que você escreveu me poupou uma tarde” também muda.
Elogiar é difícil por um motivo antigo. A maioria das pessoas cresceu competindo, na escola e no trabalho. Quem cresceu competindo aprende que reconhecer o outro é ajudar o outro a passar na frente. “Se eu elogiar demais, vão achar que ele é melhor do que eu.”
Essa conta parece proteger você, e essa conta isola você. Quem reconhece o trabalho dos outros com sinceridade ganha uma coisa rara, que é ser uma pessoa querida e levada a sério ao mesmo tempo. Os colegas passam a citar o nome dessa pessoa em reuniões, em projetos e em contratações.
Em público e em particular
Sobra uma regra prática, que diz onde cada conversa deve acontecer.
- O elogio
- O crédito por uma ideia
- O agradecimento por uma ajuda
- A correção do trabalho de uma pessoa
- A discordância que pode constranger alguém
- A conversa sobre o comportamento de uma pessoa
O capítulo do mestre Tonho mostrou a exceção a essa regra. Quando o problema é do time inteiro e precisa ser dito na frente de todos, a pessoa que fala começa pelo próprio erro.
As quatro marcas da frase do Seu Álvaro
Um elogio com estas quatro marcas poupa você do medo de parecer puxa-saco.
O elogio é verdadeiro. O Seu Álvaro começou dizendo que a fornada tinha queimado.
O elogio é específico. O Seu Álvaro falou do corte. “Bom trabalho” já serve. “O seu corte está melhor” serve muito mais.
O elogio fala do trabalho. O Seu Álvaro elogiou o que o Léo fez, e não quem o Léo é.
O elogio não pede nada em troca. Depois do elogio, o Seu Álvaro não pediu nenhum favor ao Léo.
Elogie em público. Critique em particular.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre como você fala do trabalho dos outros.abrir
Em toda entrevista você fala de outras pessoas, que são antigos colegas, professores e chefes. Quem entrevista presta atenção no espaço que essas pessoas ocupam nas suas histórias.
“Com quem você mais aprendeu até hoje?”
- Que você sabe dizer o que aprendeu, com detalhe
- Que você reconhece quem sabia mais do que você
- Que você usa até hoje o que aprendeu
- Que você dá o nome e o mérito à pessoa
- Que você não diminui a pessoa para parecer maior
- Que você agradeceu a essa pessoa
“Com uma colega do meu primeiro emprego, a Sandra. A Sandra me ensinou a conferir o trabalho antes de entregar. A Sandra tinha uma lista de cinco perguntas colada no monitor, e eu copiei a lista. Eu uso essa lista até hoje. Quando eu saí daquele emprego, eu disse à Sandra que a lista tinha mudado o meu jeito de trabalhar.”
“Na verdade eu aprendi quase tudo sozinho, pesquisando.”
Essa resposta pode ser verdade em boa parte. Dita desse jeito, a resposta apaga todas as pessoas que ajudaram no caminho. Quem ouve imagina como essa pessoa vai falar do time daqui a um ano.
“Me fala de um colega que era melhor do que você em alguma coisa.”
Esta pergunta testa a conta da competição. Para quem acha que reconhecer o outro é perder espaço, esta pergunta é desconfortável.
- Se você consegue admirar sem inveja
- Se você aprendeu alguma coisa com essa pessoa
- Se você sabe dizer exatamente em que a pessoa era melhor
- Não lembrar de ninguém
- Elogiar a pessoa e emendar um defeito dela
- Dizer que cada um tem o seu jeito, sem citar ninguém
“Um colega de turma, o Renan, explicava as coisas muito melhor do que eu. Quando o Renan explicava, a turma entendia de primeira. Eu passei a prestar atenção em como o Renan fazia. O Renan sempre começava por um exemplo, antes de dizer a regra. Eu comecei a fazer a mesma coisa.”
“Tinha um colega que programava mais rápido do que eu, mas o código dele era bem bagunçado.”
O “mas” desfaz o elogio. A pergunta pedia um reconhecimento, e a resposta deu um reconhecimento com desconto.
“Como você reconhece o bom trabalho de um colega?”
Esta pergunta é direta, e pouca gente tem uma resposta com exemplo.
- Dizer para a pessoa, e dizer o que exatamente ficou bom
- Dar o crédito na frente de quem lidera
- Agradecer por escrito, quando a ajuda foi grande
- “Eu não sou muito de elogiar”
- Elogiar só quem está acima de você
- Achar que elogiar é papel de chefe
“Eu digo para a pessoa, e eu tento dizer o que exatamente ficou bom. Em vez de ‘ficou legal’, eu digo ‘o seu passo a passo me poupou uma tarde’. E quando a ideia que deu certo foi de outra pessoa, eu digo de quem foi a ideia, na frente de quem lidera o time.”
“Eu não sou muito de elogiar. Eu acho que cada um sabe o valor que tem.”
O engano dessa resposta é achar que as pessoas sabem. Uma pessoa só fica sabendo que o trabalho serviu quando alguém conta.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que reconhecer alguém parece difícil.abrir
Um colega fez um trabalho bom, e você não disse nada
Esta situação é a quarta frase do começo do capítulo. O elogio existiu dentro da sua cabeça, e o elogio parou ali.
- Que você diga no mesmo dia
- Que você diga o que exatamente ficou bom
- Que você diga em público, quando couber
- Um elogio exagerado
- Um elogio seguido de um pedido
- Que você espere uma ocasião especial
“O jeito como você organizou aquela tela me ajudou. Eu achei o que eu precisava em dois cliques.”
Essa frase leva dez segundos para ser dita. A pessoa que ouve costuma lembrar dessa frase por semanas.
A ideia que deu certo foi de outra pessoa, e o elogio veio para você
Essa situação acontece muito em reunião. Quem lidera agradece a você por uma coisa que um colega pensou. Ficar quieto parece inofensivo. Só que o colega está na sala, ouvindo.
- Que você diga de quem foi a ideia, na hora
- Que você diga o que a pessoa fez
- Que você fique com a parte que foi sua, e só com essa parte
- Que você aceite o elogio calado
- Que você corrija depois, em particular, quando ninguém mais ouve
- Que você recuse o elogio inteiro, por falsa modéstia
“Obrigado. A ideia de separar em duas etapas foi da Júlia. Eu fiz a parte da tela.”
Dar o crédito a quem merece é o elogio que as pessoas mais demoram a esquecer.
Você precisa corrigir o trabalho de uma pessoa que também acertou
Esta é a situação do Seu Álvaro com a fornada. O erro existe e precisa ser dito. E existe também uma coisa bem feita no mesmo trabalho.
- Que você fale a sós com a pessoa
- Que você diga o erro com clareza, sem amaciar
- Que você diga também o que estava bom, se for verdade
- Um elogio inventado para adoçar a crítica
- A correção feita na frente do time
- Só o elogio, escondendo o erro
“O relatório saiu com dois totais errados, e esses totais precisam ser corrigidos hoje. A parte dos gráficos ficou muito clara, e eu quero usar esse formato nos próximos relatórios.”
O Seu Álvaro não inventou o elogio para suavizar a bronca. O corte do Léo estava mesmo melhor. Quando não existe nada de bom para dizer, a correção vai sozinha.
O que muda daqui em diante
O jantar mostrou que as pessoas precisam conhecer você. O jardim mostrou que as pessoas reparam primeiro no jeito como você trata os outros. A padaria do Seu Álvaro mostra a terceira parte. As pessoas falam bem de quem reconhece, com verdade, o trabalho das outras pessoas.
Quem dedica tempo a reconhecer o trabalho dos outros constrói o tipo de reputação que abre portas em silêncio.