A hamburgueria e o valor de mostrar resultados

Contar o quanto você se esforçou não é o mesmo que mostrar o que mudou

O interior de uma hamburgueria no fim da noite, visto de lado. À esquerda, o dono, de boné e avental, está sentado a uma mesa pequena, de cabeça baixa e com a mão no queixo, fazendo contas, com uma calculadora e uma pilha de papéis na frente. À direita, na porta aberta, o entregador está em pé, de frente para o dono, com a mochila de entrega nas costas, o capacete numa das mãos e a outra mão estendida, como quem está contando alguma coisa. Da boca do entregador sai um balão de fala, e dentro do balão há um desenho de três carros em fila, sem nenhuma palavra. O balão de fala e os três carros são desenhados em verde, o único elemento colorido da imagem. O dono não está olhando para o entregador. Ao fundo, em traço fino, a chapa desligada, uma prateleira e uma luminária. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
O Marcos conta do trânsito toda noite. O dono já não escuta, e não é por mal.

Este capítulo continua a história do capítulo anterior, na mesma hamburgueria. Se você ainda não leu o capítulo anterior, vale ler primeiro. O capítulo anterior terminou dizendo que o silêncio de quem te lidera é espaço. Este capítulo é sobre o que você diz quando resolve usar esse espaço, e sobre o jeito mais comum de usar mal esse espaço.

Eu me mato de trabalhar e ninguém vê.
Hoje foi puxado, mas eu dei conta de tudo.
Se eu não falar que foi difícil, vão achar que foi fácil.
Quem fica contando o que fez é puxa-saco.

As três primeiras frases contam esforço. A quarta frase desiste de contar qualquer coisa. Este capítulo mostra um terceiro caminho, que é contar o que mudou por causa do seu trabalho.

O seu esforço é verdadeiro. Só que contar o esforço não entrega nada a quem está ouvindo.

“Entreguei tudo, patrão”

Na imagem que abre este capítulo, o Marcos está na porta da hamburgueria, no fim da noite, contando do trânsito. O dono está sentado à mesa, de cabeça baixa, fazendo as contas. O dono é você de novo.

O Marcos já trabalha com você há algumas semanas. O Marcos trabalha direito, entrega tudo no horário e nunca deu problema.

Só que acontece uma coisa curiosa. Todo fim de expediente o Marcos chega animado e conta como foi a noite. Num dia, o Marcos diz “patrão, entreguei todos os pedidos hoje, nenhum problema!”. No dia seguinte, o Marcos diz “hoje foi pesado, muito trânsito, mas entreguei tudo”. No outro dia, o Marcos diz “quase fui fechado por um motorista, mas consegui fazer todas as entregas”.

O Marcos fala com orgulho, querendo mostrar que está comprometido. Você sorri e responde “beleza, valeu”.

Com o tempo, você para de ouvir. Você não para de ouvir por falta de consideração. Você para de ouvir porque entregar sem problema é o trabalho do Marcos, e enquanto as entregas acontecem a sua cabeça está em outros lugares. Você precisa comprar ingredientes, pagar fornecedor, consertar o freezer e fechar o caixa.

Quarenta e cinco minutos

Agora troque de papel. Imagine que você tem um colega de trabalho que mora a quinze minutos da empresa e vai de carro, com ar-condicionado. Você pega três ônibus e um metrô, e leva três horas para chegar, no calor e em pé.

Um dia esse colega chega irritado. “Que absurdo esse trânsito, hoje eu demorei quarenta e cinco minutos!”

Você olha para o colega e pensa que quarenta e cinco minutos é o tempo que você leva só para trocar de ônibus. O colega não é uma pessoa ruim, e o colega não está exagerando de propósito. Para o colega, quarenta e cinco minutos de trânsito são mesmo um dia ruim, porque o colega nunca passou três horas dentro de ônibus para chegar ao trabalho. Só que o problema do colega e o seu problema têm tamanhos diferentes, e a reclamação do colega soa fora de proporção para você.

O dono da hamburgueria escuta o Marcos do mesmo jeito. O trânsito, o motorista imprudente e a noite puxada fazem parte do trabalho de entregar. Enquanto o Marcos fala do trânsito, o dono está pensando em dívida, imposto, aluguel e salário para pagar. Na cabeça do dono, a frase do Marcos chega como o trânsito de quarenta e cinco minutos.

O esforço que para você é enorme pode ser, para quem te ouve, a parte normal do trabalho.

As quatro frases

Agora imagine o Marcos chegando no fim da noite com outro tipo de frase.

As quatro frases

O que o Marcos poderia dizer no fim da noite

Estas quatro frases poupam o Marcos de passar meses falando sem ser ouvido.

Um resultado, com número. “Patrão, estamos há três dias sem atrasar nenhum pedido. Eu perguntei a alguns clientes, e os clientes elogiaram o tempo de entrega.”

Um risco, antes de o risco virar problema. “Patrão, a moto está há quatro meses sem trocar o óleo. Quer que eu leve para trocar? Eu posso agendar.”

Uma solução para um aperto que vem vindo. “Patrão, o movimento do fim de semana está aumentando. Eu tenho um amigo entregador que pode ajudar. Quer o contato dele?”

Um sinal de que o negócio está crescendo. “Patrão, nós entregamos dez por cento a mais de pedidos do que na semana passada, e sem nenhum atraso.”

Com essas frases, você passa a notar o Marcos. E o Marcos não pediu atenção em nenhuma das quatro frases. O Marcos trouxe informações que tiram uma preocupação da sua cabeça, ou que mostram que a hamburgueria está indo bem.

Repare que em nenhuma das quatro frases o Marcos fala do próprio Marcos. O Marcos fala da hamburgueria.

A mesma troca, no seu trabalho

No seu trabalho acontece igual. Quando você chega para quem te lidera e diz “hoje foi pesado, mas consegui entregar tudo”, você está mostrando esforço. Quem te lidera já conta com o seu esforço. O que quem te lidera ainda não sabe é o que mudou por causa do seu trabalho.

A frase de esforço
  • “Hoje foi pesado, mas eu entreguei tudo.”
  • “Eu fiquei até tarde para resolver aquele erro.”
  • “Deu muito trabalho, mas eu terminei.”
A frase de resultado
  • “Nós terminamos tudo que estava combinado para estas duas semanas, no prazo e sem nenhum erro grave.”
  • “Eu achei o que estava atrasando o time e corrigi. Aquele erro não deve voltar.”
  • “Eu olhei as últimas entregas, e a quantidade de coisa que nós precisamos refazer caiu um quinto.”

As frases da direita falam a língua de quem lidera, que é a língua do resultado, do combinado cumprido e do alívio.

Nada disso quer dizer que o seu esforço não vale. O seu esforço é de verdade. E existe uma hora certa de falar do esforço, que é a hora em que o esforço está passando do limite e você precisa de ajuda. O que este capítulo diz é que o esforço, contado sozinho, não informa nada a quem ouve.

E contar resultado não é se exibir. Quem se exibe fala de si. O Marcos das quatro frases fala do que o dono precisa saber.

Quem reclama do esforço busca compreensão. Quem mostra o resultado conquista confiança.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas em que a resposta de esforço perde para a resposta de resultado.
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Numa entrevista, quase toda pergunta sobre o seu passado pode ser respondida de dois jeitos. Você pode contar o quanto trabalhou, ou você pode contar o que mudou. As três perguntas abaixo são as perguntas em que essa diferença mais aparece.

“Do que você mais se orgulha no seu último trabalho?”

O avaliador técnico quer ver
  • Um resultado que dá para conferir
  • O que mudou para quem usava o seu trabalho
  • A sua parte, separada da parte do time
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você fala do trabalho, e não do seu sacrifício
  • Que você dá crédito a quem ajudou
  • Que o seu orgulho vem de uma coisa que serviu a alguém
Boa resposta

“Eu me orgulho de ter diminuído a fila do atendimento. Eu reparei que metade das ligações era a mesma dúvida. Eu escrevi a resposta num lugar onde o cliente achava sozinho, e em um mês as ligações sobre aquela dúvida caíram pela metade. Quem me mostrou onde ficavam os números foi uma colega do atendimento.”

Resposta ruim

“Eu me orgulho da minha dedicação. Eu era sempre o primeiro a chegar e o último a sair.”

Essa resposta conta as horas, e não conta o que as horas produziram. Quem ouve fica sem saber se a dedicação serviu para alguma coisa.

“Como foi o seu último projeto?”

Esta pergunta é aberta de propósito. A pergunta deixa você escolher se vai contar a dificuldade ou o resultado.

O que eles querem saber
  • O que o projeto resolveu, em uma frase
  • O que ficou pronto e o que não ficou
  • O que você aprendeu e mudaria no próximo projeto
O que derruba
  • Uma lista de tudo que deu trabalho
  • Uma lista das ferramentas que você usou
  • Reclamar do prazo ou das pessoas
Boa resposta

“O projeto era para o pessoal da loja parar de anotar pedido no papel. Ficaram prontas a parte de registrar o pedido e a parte de consultar o estoque. A parte de emitir nota não ficou pronta no prazo, e eu avisei desse atraso duas semanas antes. O que eu faria diferente é mostrar a tela para quem ia usar logo no começo.”

Resposta ruim

“Foi bem puxado. A gente tinha pouco tempo, o pedido mudou várias vezes, e eu virei algumas noites para dar conta.”

Tudo nessa resposta pode ser verdade, e a resposta inteira é o trânsito do Marcos. No fim dessa resposta, quem ouve ainda não sabe o que o projeto fazia, nem se o projeto funcionou.

“Como você costuma avisar quem te lidera sobre o andamento do seu trabalho?”

Poucos candidatos pensaram nesta pergunta antes da entrevista. Esta pergunta mede exatamente o assunto deste capítulo.

Boa direção
  • Avisar em momentos combinados, e não o tempo todo
  • Dizer o que ficou pronto, o que falta e o que pode atrasar
  • Levar o risco junto com uma sugestão
Direção ruim
  • “Eu aviso quando termino”
  • Mandar mensagem a cada passo
  • Só aparecer quando dá problema
Boa resposta

“Eu combino com quem me lidera um momento por semana. Nesse momento eu digo o que ficou pronto, o que falta e o que eu acho que pode atrasar. Se eu vejo um risco, eu levo o risco junto com uma ideia do que fazer. Fora desse momento, eu só interrompo se alguma coisa for travar outra pessoa.”

Resposta ruim

“Eu vou avisando conforme vou fazendo, para a pessoa ver que eu estou trabalhando.”

O fim dessa resposta entrega o motivo dos avisos. Avisar para mostrar que você está trabalhando é contar esforço. Depois de uma semana, quem recebe esses avisos para de ler os avisos, do mesmo jeito que o dono parou de ouvir o Marcos.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que você precisa contar o que fez.
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Chegou o fim do dia, e você quer contar que foi puxado

Essa vontade é legítima. O dia foi puxado de verdade, e contar alivia. O que vale decidir é para quem você conta.

Esperam de você
  • Que você conte o cansaço para um colega ou para alguém de casa
  • Que você conte a quem te lidera o que ficou pronto
  • Que você avise quando o cansaço virar risco para a entrega
Não esperam de você
  • Um relato diário das dificuldades
  • Que você esconda que está no limite
  • Que você espere reconhecimento pelo cansaço
O que dizer

“Eu fechei as três tarefas de hoje. A tarefa de amanhã depende de uma resposta do cliente, e eu já pedi essa resposta.”

Essa frase tem o mesmo tamanho de “hoje foi puxado, mas entreguei tudo”. A diferença é que quem ouve essa frase sai da conversa sabendo de duas coisas que não sabia antes.

Você viu um risco que ninguém pediu para você olhar

Este é o óleo da moto. Ninguém pediu ao Marcos que cuidasse da manutenção. Só que o Marcos é a pessoa que anda na moto todo dia.

Esperam de você
  • Que você conte o risco cedo, em uma frase
  • Que você diga o que pode acontecer se ninguém fizer nada
  • Que você ofereça fazer uma parte
Não esperam de você
  • Que você guarde o risco porque não é a sua tarefa
  • Que você resolva sozinho, sem combinar
  • Que você conte o risco em tom de reclamação
O que dizer

“Eu reparei que a cópia de segurança não roda há duas semanas. Se o servidor der problema, nós perdemos esse período. Quer que eu veja o que travou?”

Quem está mais perto do trabalho enxerga o risco antes de todo mundo. Um risco contado cedo é uma das informações mais valiosas que você pode levar a quem te lidera.

Você não tem número nenhum para mostrar

Nem todo trabalho vem com número, principalmente no começo. O Marcos também não tinha número no primeiro dia. O Marcos passou a ter número quando começou a contar os dias sem atraso.

Esperam de você
  • Que você comece a anotar alguma coisa simples
  • Que você pergunte a quem usa o seu trabalho se o trabalho serviu
  • Que você conte o que mudou, mesmo sem número
Não esperam de você
  • Que você invente um número
  • Que você enfeite o resultado
  • Que você fique calado até ter um resultado grande
O que dizer

“Eu não tenho número ainda. O que eu sei é que o pessoal do atendimento parou de me perguntar sobre aquela tela, e antes o pessoal perguntava todo dia.”

Uma pergunta que parou de chegar é um resultado, e é um resultado fácil de conferir.

O que muda daqui em diante

Contar o que você fez
Antes
Contar o quanto você se esforçou
Agora
Contar o que mudou por causa do seu trabalho
O seu esforço
Antes
A prova do seu valor
Agora
Uma coisa verdadeira, que quem te lidera já espera de você
A dificuldade do dia
Antes
Um assunto para levar sempre a quem te lidera
Agora
Um assunto para levar a quem te lidera quando a dificuldade vira risco
Falar de resultado
Antes
Coisa de puxa-saco
Agora
Entregar a quem te lidera uma informação que tira uma preocupação
Um risco fora da sua tarefa
Antes
Problema de outra pessoa
Agora
A informação mais útil que você pode levar, porque você viu primeiro

O capítulo anterior ensinou a ler o silêncio de quem te lidera. Este capítulo ensinou o que colocar no lugar do silêncio, quando você resolver falar. A frase certa fala do que a pessoa do outro lado precisa saber, e não de quanto custou a você.

A empresa já sabe que você trabalha duro. O que a empresa quer saber é se o que você faz está funcionando.