O carpinteiro e o valor de ser corrigido
Por que “é só um centímetro” faz a gaveta emperrar

No capítulo anterior, o mal-entendido estava nas palavras. O cliente do restaurante dizia “ao ponto” e queria outra coisa. Neste capítulo as palavras são claras, e mesmo assim quem escuta entende outra coisa. Alguém diz “essas duas tábuas precisam ser refeitas”. A pessoa que ouve escuta “você não serve para este trabalho”.
Nenhuma dessas quatro frases foi dita pela pessoa que corrigiu. As quatro frases foram ditas dentro da cabeça da pessoa que foi corrigida.
A correção fala do trabalho. Quem está começando costuma ouvir a correção como uma opinião sobre a pessoa.
Um centímetro e meio
As duas tábuas da imagem que abre este capítulo deveriam ter o mesmo tamanho. A ponta verde é o pedaço que sobrou numa das tábuas, e esse pedaço mede um centímetro e meio. A história deste capítulo começa nesse pedaço.
A história se passa numa marcenaria de bairro, com cheiro de madeira e de verniz. Na marcenaria trabalham o Jorge, que é um carpinteiro experiente, e o Rafael, que é o aprendiz novo do Jorge.
No primeiro dia, o Jorge pede ao Rafael que corte algumas tábuas com oitenta centímetros, todas iguais. O Rafael mede, marca, corta e entrega as tábuas com orgulho.
O Jorge confere as tábuas uma a uma. Depois o Jorge diz, com calma, que duas tábuas estão com oitenta e um centímetros e meio, e que o Rafael vai precisar refazer essas duas tábuas.
O Rafael respira fundo e força um sorriso. “Ah, mas é só um centímetro, quase nada! Dá para usar assim.”
O Jorge responde sem levantar a voz. “Pode até dar para usar. Só que o cliente pediu um móvel com encaixe exato. ‘Quase nada’ é o que faz a gaveta emperrar.”
O Rafael refaz o corte. Naquele dia o Rafael vai embora de cabeça pesada, pensando que tinha se esforçado tanto e ainda teve de ouvir bronca.
O que cada um estava pensando
O Rafael não ficou mal por causa das duas tábuas. O Rafael ficou mal porque, para o Rafael, a correção soou como rejeição. Quase toda pessoa que está começando passa por isso. Quem ainda está tentando provar que merece o lugar escuta qualquer correção como um aviso de que talvez não mereça o lugar.
Na cabeça do Jorge, a conversa tinha sido outra.
- “O Jorge achou o meu trabalho ruim”
- “O Jorge acha que eu não sirvo para isso”
- “Eu me esforcei, e o meu esforço não contou”
- Na gaveta do cliente, que precisa fechar
- No prazo da entrega
- No nome da marcenaria, que vai junto com o móvel
O Jorge não estava julgando o Rafael. O Jorge estava pensando no cliente, no prazo e na reputação da marcenaria. Para o Jorge, a conta era simples. Se um centímetro passa hoje, amanhã passam dois centímetros. E quando o móvel travar na casa do cliente, o prejuízo é do Jorge e do Rafael, juntos.
“Quase nada” é o que faz a gaveta emperrar.
“Está igualzinho eu faria”
Dias depois, o Jorge pede o mesmo corte, desta vez com setenta e cinco centímetros. O Rafael mede, corta e confere três vezes antes de entregar. O Jorge olha as tábuas, confere a medida e diz “perfeito, está igualzinho eu faria”.
O Rafael sorri, aliviado. O que o Rafael sente nessa hora é diferente do que uma pessoa sente quando recebe um elogio. O Rafael sente que agora sabe fazer aquele corte.
Com o tempo, o Rafael entende que o Jorge nunca quis diminuir o esforço do Rafael. O Jorge queria manter o padrão da marcenaria.
O que é o padrão
O padrão é a medida que todas as pessoas da marcenaria combinaram de cumprir. Oitenta centímetros são oitenta centímetros para o Jorge, para o Rafael e para o cliente.
O padrão protege o nome de todas as pessoas que trabalham na marcenaria. O cliente não sabe quem cortou cada tábua. O cliente só sabe que a gaveta emperra, e que o móvel veio daquela marcenaria.
Como o Jorge corrige
Um dia vai ser você quem corrige o trabalho de outra pessoa. Estas quatro coisas, que o Jorge faz na história, poupam muita mágoa a quem ouve a correção.
O Jorge fala das tábuas, e não do Rafael. O Jorge diz “essas duas tábuas estão com oitenta e um e meio”. O Jorge não diz “você é desatento”.
O Jorge dá a medida exata. “Está errado” não ajuda ninguém a consertar. “Um centímetro e meio a mais” ajuda.
O Jorge diz o motivo. O cliente pediu encaixe exato, e com a sobra a gaveta emperra.
O Jorge avisa quando o trabalho ficou certo. “Está igualzinho eu faria” fecha a correção que tinha começado dias antes.
A revisão do seu trabalho
Num time de tecnologia, a cena da marcenaria acontece toda semana. Quem está começando termina uma tarefa e manda o trabalho para uma pessoa mais experiente olhar. A pessoa mais experiente devolve o trabalho com alguns comentários.
Os comentários costumam ser deste tipo. “Tente dar outro nome a essa parte, para ficar mais claro.” “Esse trecho pode dar problema mais adiante.” “Dá para simplificar essa parte.”
Quem recebe os comentários respira fundo. Quem recebe os comentários pensa que passou horas naquele trabalho, e que a outra pessoa só soube apontar defeito. Do outro lado, a pessoa mais experiente está pensando que aquele trecho vai dar problema depois, se ninguém apontar agora.
Na tarefa seguinte, quem está começando recebe novos comentários e responde na defensiva. “Mas está funcionando assim. Eu não entendi por que mudar.” Para não atrasar o time, a pessoa mais experiente aprova o trabalho do jeito que está. Pouco tempo depois, uma mudança pequena em outra parte do sistema quebra aquele trabalho, e o time precisa refazer uma parte.
Funcionar não é o mesmo que estar certo.
Meses depois, a mesma pessoa manda outra tarefa, recebe os comentários e responde de outro jeito. “Boa observação, eu não tinha pensado por esse lado. Faz sentido, eu vou ajustar.” A pessoa ajusta o trabalho, testa, e percebe que o resultado ficou melhor. Desta vez o comentário que volta é “agora está no padrão do time”.
Aceitar correção não significa abaixar a cabeça. Aceitar correção é ter orgulho de querer melhorar, mais do que orgulho de parecer bom.
E quando a insegurança apertar, vale lembrar de uma coisa. Ninguém gasta tempo corrigindo uma pessoa de quem já desistiu. Quem corrige você está apostando que você consegue fazer melhor.
Ser corrigido é desconfortável. Continuar errado custa mais caro.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre revisão, padrão e trabalho refeito.abrir
Quem contrata uma pessoa que está começando sabe que vai precisar corrigir essa pessoa muitas vezes. As três perguntas abaixo querem saber quanto vai custar cada correção.
“Você prefere que revisem o seu trabalho, ou prefere trabalhar sem revisão?”
- Que você vê a revisão como parte do trabalho
- Que você sabe dizer o que ganhou com uma revisão
- Que você já seguiu um padrão que não era o seu
- Que você não trata revisão como desconfiança
- Que você separa o comentário da pessoa que fez o comentário
- Que você não precisa de elogio junto com cada correção
“Eu prefiro que revisem, principalmente agora que eu estou começando. Num trabalho de curso, um colega me mostrou que eu dava nomes que só eu entendia. Eu fiquei chateado na hora. Duas semanas depois, nem eu entendia aqueles nomes. Hoje eu peço revisão antes de alguém precisar me cobrar.”
“Eu prefiro ter autonomia. Eu rendo melhor quando confiam no meu trabalho.”
Essa resposta trata a revisão como falta de confiança. Quem ouve imagina o Rafael dizendo “é só um centímetro” toda vez que alguém apontar alguma coisa.
“O que você faz quando discorda de um comentário sobre o seu trabalho?”
Esta pergunta existe porque nem toda correção está certa. Quem entrevista quer ver se você sabe discordar sem transformar a conversa numa defesa.
- Se você tenta entender o motivo antes de responder
- Se você discorda com um argumento sobre o trabalho
- Se você aceita o padrão do time quando o assunto é gosto
- “Eu explico por que o meu jeito funciona”
- Aceitar tudo calado e continuar discordando
- Levar a discordância para o lado pessoal
“Primeiro eu pergunto o motivo do comentário, porque muitas vezes existe um motivo que eu não conheço. Se depois disso eu ainda discordar, eu digo que risco eu vejo na mudança. E quando a questão é o padrão do time, eu sigo o padrão, mesmo preferindo fazer de outro jeito.”
“Se está funcionando, eu explico que está funcionando. Eu não vejo motivo para mexer no que funciona.”
“Está funcionando” responde uma pergunta que ninguém fez. O comentário era sobre o padrão, e essa resposta mostra que a pessoa ainda não entendeu para que serve um padrão.
“Me conta de uma correção que mudou o seu jeito de trabalhar.”
Esta pergunta pede uma história com começo, meio e fim. Quem nunca aproveitou uma correção não tem essa história para contar.
- Contar a correção com as palavras de quem corrigiu
- Dizer o que você sentiu na hora, sem esconder
- Mostrar o que você faz diferente até hoje
- Não lembrar de nenhuma correção
- Contar uma correção em que você tinha razão
- Falar mal de quem corrigiu
“No meu primeiro emprego, a supervisora me devolveu uma planilha e disse que os totais não fechavam com o relatório do banco. Eu achei exagero, porque a diferença era de centavos. A supervisora me explicou que, com uma diferença de centavos, o contador precisava conferir a planilha inteira. Desde aquele dia eu confiro o total antes de entregar qualquer número.”
“Sinceramente, as correções que eu recebi eram mais questão de gosto de quem corrigia.”
Uma correção ou outra pode mesmo ter sido questão de gosto. Dita desse jeito, a frase conta que a pessoa recebeu correções durante anos e não aproveitou nenhuma correção.
práticaLevar para o trabalho
Três situações, de ouvir “refaz” ao dia em que é você quem corrige.abrir
Mandaram você refazer uma coisa que você achava pronta
Os primeiros segundos são os mais difíceis. O corpo reage antes da cabeça, e a frase que vem pronta é “mas é só um detalhe”.
- Que você pergunte o que exatamente precisa mudar
- Que você pergunte o motivo, se o motivo não ficou claro
- Que você refaça e avise quando terminar
- “É só um detalhe”
- Que você refaça de cara fechada, sem entender o motivo
- Que você refaça de qualquer jeito, para mostrar que o jeito antigo era melhor
“Entendi. Só para eu não errar de novo: o problema é a medida, ou existe mais alguma coisa? Eu refaço e te mostro ainda hoje.”
Essa frase faz o que o Rafael não fez no primeiro dia. A frase procura o padrão, em vez de defender o trabalho.
A correção veio seca, sem cuidado nenhum
Nem todo mundo corrige como o Jorge. Às vezes o comentário chega curto e sem explicação, e às vezes o comentário chega na frente de outras pessoas. A falta de jeito de quem corrige é um problema de verdade. Só que a falta de jeito não muda a medida da tábua.
- Que você separe o conteúdo da correção do tom de quem corrigiu
- Que você confira primeiro se a correção está certa
- Que você fale do tom depois, a sós, se o tom se repetir
- Que você rejeite a correção por causa do tom
- Que você responda no mesmo tom
- Que você guarde a mágoa e deixe o trabalho errado
“Você tem razão sobre a medida, e eu já corrigi. Uma coisa que me ajudaria é você me dizer o motivo junto, porque sabendo o motivo eu não repito o erro.”
Uma correção mal dita pode estar certa. Vale aproveitar o conteúdo da correção e, depois, cuidar do tom numa conversa separada.
Chegou a sua vez de corrigir o trabalho de alguém
Esse dia chega mais cedo do que parece. Basta entrar uma pessoa mais nova no time, ou um colega pedir que você olhe um trabalho.
- Que você fale do trabalho, e não da pessoa
- Que você diga exatamente o que mudar, e por quê
- Que você avise quando o trabalho ficou bom
- “Isso está errado”, sem dizer o que está errado
- Uma lista de dez defeitos de uma vez
- Que você refaça o trabalho sozinho, sem explicar nada
“Essa parte aqui eu mudaria, porque do jeito que está a próxima pessoa que mexer não vai entender. O resto está bom. Quer que eu te mostre como eu faria?”
Lembre de como o Rafael saiu da marcenaria no primeiro dia. A pessoa que você está corrigindo pode estar ouvindo aquelas mesmas quatro frases dentro da cabeça.
O que muda daqui em diante
A seção anterior já tinha falado de assumir um erro e de escutar um palpite. Este capítulo mostrou a outra metade da conversa, que é a cabeça de quem corrige. Quem corrige você está olhando para o trabalho e para o cliente, e quase nunca está olhando para você.
O aprendiz que se ofende com a correção para de crescer. O aprendiz que aproveita a correção cresce mais depressa do que todos os outros.