O jardim dos pequenos reconhecimentos

Reputação se constrói cuidando bem do pedaço que está na sua mão hoje

Uma calçada vista de frente, com cinco canteiros quadrados em fila, da esquerda para a direita, e um muro baixo ao fundo. O primeiro canteiro, à esquerda, já foi cuidado e tem plantas de folhas largas. O segundo canteiro também já foi cuidado e tem flores abertas, parecidas com margaridas. No canteiro do meio a terra está recém-mexida, e nela há uma muda pequena, com poucas folhas, desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. O quarto canteiro ainda não foi cuidado e tem flores murchas, caídas. O quinto canteiro, à direita, tem terra seca, mato ralo e lixo, com um copo virado. Não há ninguém na calçada, e não há nenhuma palavra escrita na imagem.
O jardineiro não reformou a rua inteira. O jardineiro cuidou de um canteiro por dia.

O capítulo anterior mostrou que as pessoas só confiam em quem conhecem. Este capítulo trata do que as pessoas ficam conhecendo de você. A resposta é boa para quem está começando. A primeira coisa que as pessoas conhecem de você é o jeito como você trata as outras pessoas, e esse jeito você já tem no primeiro dia de trabalho. O seu conhecimento técnico as pessoas só vão conhecer depois.

Quando eu souber mais, aí sim vão me respeitar.
Eu ainda não tenho nada de importante para mostrar.
Isso é coisa pequena. Ninguém vai reparar.
Que pergunta boba. Como é que a pessoa não sabe isso?

As três primeiras frases adiam a reputação para um dia que nunca chega. A quarta frase constrói uma reputação agora mesmo, e a reputação que a quarta frase constrói é ruim.

A reputação se constrói cuidando bem do pedaço que está na sua mão hoje.

Um canteiro por dia

A imagem que abre este capítulo mostra uma calçada com cinco canteiros em fila. A muda verde, no canteiro do meio, acabou de ser plantada. O jardineiro que plantou essa muda cuida de um pedaço da rua por dia.

O jardineiro desta história trabalha para a cidade, e cuida de vários canteiros espalhados pelas ruas. Nenhum canteiro é grandioso. O jardineiro não tem tempo nem dinheiro para reformar todos os canteiros de uma vez.

Então o jardineiro faz uma coisa pequena por dia. Num canteiro, o jardineiro tira o lixo que o vento trouxe. Em outro canteiro, o jardineiro rega as flores murchas. No canteiro seguinte, o jardineiro planta uma muda nova.

No começo ninguém repara. Depois de alguns dias, quem passa pela rua começa a notar a diferença. “Engraçado, essa rua parece mais viva.” “Essas flores não estavam mortas na semana passada?”

O retorno chega cedo. Os vizinhos passam a cumprimentar o jardineiro, os comerciantes da rua oferecem água, e alguém convida o jardineiro para cuidar de mais um espaço. O jardineiro ainda não é conhecido na cidade inteira. Só que o retorno começou no primeiro gesto que alguém conseguiu ver.

Repare que cada gesto do jardineiro é pequeno, e que cada gesto cabe no lugar. O jardineiro não tenta plantar uma árvore enorme no meio da calçada. O jardineiro olha o canteiro e faz o que aquele canteiro aguenta naquele dia.

As formigas perto do banco

Com o tempo, o jardineiro começa a prestar atenção nas pessoas, além de prestar atenção nas plantas. O jardineiro percebe que, perto de um banco da praça, as pessoas sempre reclamam de formiga. O jardineiro prepara uma mistura simples e trata aquele lugar.

Alguns dias depois, o jardineiro vê o mesmo grupo sentado no banco. O jardineiro se aproxima sorrindo. “Eu ouvi vocês comentarem das formigas outro dia. Eu fiz um tratamento aqui. Eu queria saber se melhorou para vocês.”

O gesto é discreto, e o gesto diz duas coisas ao grupo. O gesto diz que o jardineiro presta atenção no que incomoda as pessoas. E o gesto mostra o resultado do trabalho sem alarde nenhum.

Daquele dia em diante, o grupo do banco passa a ver o jardineiro como uma pessoa que se importa com quem vive em volta do jardim. A admiração começa em gestos pequenos como esse.

Ninguém pediu ao jardineiro que cuidasse das formigas. O jardineiro ouviu a reclamação, resolveu, e voltou para saber se tinha melhorado.

Quem tem medo de perguntar

No trabalho com tecnologia, a reputação nasce do mesmo jeito. A reputação vem de entregas pequenas e constantes, que resolvem o incômodo de alguma pessoa.

Existe um incômodo muito comum, que quem é da área quase nunca enxerga. Muita gente tem medo de falar com a área de tecnologia. A pessoa acha que vai fazer uma pergunta boba, que vai parecer burra, ou que vai receber um olhar de impaciência. Essa pessoa já foi tratada, alguma vez, como se não entendesse nada. Ninguém gosta de se sentir diminuído, e por isso a pessoa para de pedir ajuda.

Aí aparece um profissional diferente. Esse profissional ouve com paciência e diz “fica tranquilo, isso acontece mesmo, e não é só com você”. Ou esse profissional diz “vamos resolver juntos, o erro não foi seu”.

O medo da pessoa vira confiança. A pessoa passa a saber que pode contar com esse profissional. Sem perceber, esse profissional vira a boa referência da área inteira. Esse profissional não sabe mais do que os colegas. Esse profissional trata as pessoas melhor do que os colegas tratam.

Você já esteve dos dois lados

Dentro do time técnico acontece igual. Quem está começando e procura uma pessoa mais experiente sente o mesmo medo que um usuário sente quando procura o suporte. A pessoa tem medo de parecer incompetente e tem medo de atrapalhar. O capítulo do ajudante da padaria mostrou esse lado, que é o lado de quem pergunta.

Este capítulo mostra o outro lado. Mesmo sendo a pessoa mais nova do time, você já é a pessoa mais experiente de alguém. Você sabe mais do que o colega de outra área que não entende a tela. Você sabe mais do que a pessoa que entrou no time na semana passada.

Quem trata bem essas pessoas começa a construir uma imagem antes de dominar a parte técnica. Quem trata bem essas pessoas vira a pessoa com quem dá para contar, que escuta e que facilita a vida dos outros.

Hoje muita gente leva à inteligência artificial as perguntas que tinha vergonha de fazer a uma pessoa. A ferramenta responde sem suspirar e sem olhar torto, e essa paciência é boa para quem pergunta. Só que a ferramenta responde quando alguém pergunta. O jardineiro ouviu a reclamação das formigas sem ninguém pedir nada, tratou o lugar, e voltou para saber se tinha melhorado. Reparar no que incomoda as pessoas, sem ser chamado, continua sendo coisa de quem está por perto.

Um metro quadrado

Os três passos do jardineiro com as formigas

Estes três passos poupam você de esperar anos por uma chance grande de mostrar o seu valor.

Reparar. O jardineiro ouviu uma reclamação que ninguém fez diretamente ao jardineiro.

Resolver uma coisa pequena. O jardineiro usou uma mistura simples, num lugar só.

Voltar para perguntar. “Eu queria saber se melhorou para vocês.”

Quem percebe o que importa para as pessoas, e age com gentileza, cresce em qualquer fase da carreira.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre o que você já consegue oferecer, mesmo começando.
abrir

Quem contrata uma pessoa que está começando sabe que a parte técnica ainda vai ser aprendida. O jeito de tratar as pessoas já vem pronto, e as três perguntas abaixo procuram esse jeito.

“Me conta de uma vez em que você ajudou alguém sem ninguém pedir.”

O avaliador técnico quer ver
  • Um gesto pequeno e concreto
  • O que mudou para a outra pessoa
  • Que você voltou para saber se a ajuda resolveu
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você repara no que incomoda os outros
  • Que você não espera plateia para ajudar
  • Que você conta a história sem se fazer de herói
Boa resposta

“No meu curso, eu reparei que três colegas travavam sempre na mesma etapa da instalação. Eu escrevi um passo a passo de uma página e mandei no grupo da turma. Na semana seguinte eu perguntei se o passo a passo tinha servido. Dois colegas disseram que sim, e um colega me mostrou um passo que eu tinha esquecido. Eu corrigi o passo a passo.”

Resposta ruim

“Eu sempre ajudo todo mundo. Eu sou muito prestativo.”

Essa resposta descreve uma qualidade e não conta nenhum fato. Quem ouve não consegue imaginar uma cena, e a reputação de uma pessoa é feita das cenas que os outros lembram.

“O que você faz quando alguém te faz uma pergunta que parece óbvia?”

Esta pergunta mede o que acontece no seu rosto antes de você responder.

O que eles querem saber
  • Se você responde sem diminuir quem perguntou
  • Se você tenta entender por que a dúvida apareceu
  • Se você lembra de quando a dúvida era sua
O que derruba
  • “Eu mando procurar na documentação”
  • Dizer que você não tem paciência para pergunta básica
  • Responder com ironia
Boa resposta

“Eu respondo. Uma pergunta que hoje é óbvia para mim já foi dúvida minha um dia. Eu costumo dizer que aquela dúvida é comum, e depois eu explico. Quando a mesma pergunta aparece muitas vezes, eu desconfio que falta uma explicação escrita em algum lugar, e eu tento escrever essa explicação.”

Resposta ruim

“Eu respondo, mas eu deixo claro que isso a pessoa já devia saber.”

A segunda metade dessa resposta desfaz a primeira metade. A pessoa que ouviu “isso você já devia saber” não pergunta de novo, e passa a esconder as dúvidas.

“Você está começando. O que você acha que já consegue oferecer a um time?”

Esta pergunta parece armadilha, porque a resposta honesta sobre a parte técnica é “pouco”. O capítulo inteiro é a resposta para esta pergunta.

Boa direção
  • Dizer o que você faz bem e que não depende de experiência
  • Dar um exemplo pequeno
  • Juntar esse exemplo com a vontade de aprender a parte técnica
Direção ruim
  • “Eu aprendo rápido”, sem mais nada
  • Prometer um resultado técnico que você ainda não tem
  • Dizer que você ainda não tem nada a oferecer
Boa resposta

“Na parte técnica eu ainda vou depender de orientação, e eu sei disso. O que eu já consigo oferecer é atenção. Eu anoto o que me explicam, eu cuido bem das tarefas pequenas, e eu tenho paciência com quem tem dúvida. No meu último emprego, que era num balcão de atendimento, os clientes pediam para ser atendidos por mim.”

Resposta ruim

“Por enquanto eu não tenho muito a oferecer. Eu preciso de uma chance para aprender.”

Essa resposta é humilde, e joga fora a única coisa que a pessoa já tinha na mão. Quem ouve fica com a impressão de que vai contratar alguém que só vai receber.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que um gesto pequeno muda o que as pessoas pensam de você.
abrir

Alguém de fora da área faz uma pergunta que parece boba

A pessoa que faz essa pergunta quase sempre pensou duas vezes antes de perguntar. A resposta que você der vai decidir se essa pessoa pergunta de novo.

Esperam de você
  • Que você responda sem suspirar
  • Que você diga que a dúvida é comum, quando a dúvida for comum
  • Que você confira se a pessoa conseguiu resolver
Não esperam de você
  • “É só fazer assim”, e virar as costas
  • Que você use palavra difícil para mostrar que sabe
  • Que você comente depois, com os colegas, a pergunta da pessoa
O que dizer

“Fica tranquilo, essa tela confunde muita gente. Me mostra onde você parou, e nós resolvemos juntos.”

A pessoa vai lembrar de como se sentiu ao perguntar, muito mais do que vai lembrar da resposta.

Todo mundo reclama de uma coisa pequena, e ninguém resolve

Todo time tem as suas formigas. As formigas podem ser um aviso de erro que ninguém entende, um arquivo que ninguém acha, ou uma etapa em que todo mundo erra.

Esperam de você
  • Que você resolva o que cabe em uma hora
  • Que você avise o que fez, em uma frase
  • Que você volte para perguntar se melhorou
Não esperam de você
  • Um projeto grande para reformar tudo
  • Que você resolva e não conte para ninguém
  • Que você anuncie o feito numa reunião
O que dizer

“Eu vi que várias pessoas se perdiam naquele aviso de erro. Eu reescrevi o texto do aviso. Você me conta depois se ficou mais claro?”

O tamanho do gesto importa. O jardineiro não plantou uma árvore enorme na calçada. Uma hora de trabalho num incômodo que todo mundo sente vale mais, para a sua reputação, do que um mês num projeto que ninguém pediu.

Você acha que ainda não tem nada para mostrar

Quem está começando costuma esperar o dia da entrega grande. Enquanto esse dia não chega, as pessoas já estão formando uma opinião sobre você, com o que as pessoas têm para olhar.

Esperam de você
  • Que você cuide bem das tarefas pequenas
  • Que você seja a pessoa que responde e que cumpre
  • Que você trate bem quem faz uma pergunta a você
Não esperam de você
  • Que você impressione na primeira semana
  • Que você recuse uma tarefa pequena por achar pouco
  • Que você espere saber mais para começar a ajudar
O que dizer

“Eu posso ficar com essa tarefa. A tarefa é pequena, e eu entrego amanhã cedo.”

Uma tarefa pequena bem cuidada é o canteiro de um metro quadrado. Ninguém aplaude um canteiro limpo. Depois de alguns dias, todo mundo repara na rua.

O que muda daqui em diante

Reputação
Antes
Uma coisa que vem depois de um grande feito
Agora
Uma coisa que começa no primeiro gesto que alguém consegue ver
Uma pergunta boba
Antes
Prova de que a pessoa não se esforçou
Agora
Uma pessoa com medo, que tomou coragem para perguntar
Uma tarefa pequena
Antes
Coisa de quem ainda não é levado a sério
Agora
O canteiro de um metro quadrado, que as pessoas veem todo dia
Saber mais do que os outros
Antes
O que faz uma pessoa ser procurada
Agora
Metade do motivo. A outra metade é tratar bem quem procura
Voltar para perguntar se resolveu
Antes
Exagero
Agora
O jeito mais discreto de mostrar o resultado do seu trabalho

O capítulo do jantar disse que as pessoas precisam conhecer você. Este capítulo disse o que as pessoas ficam conhecendo primeiro. As pessoas lembram de como foram tratadas por você muito antes de lembrar do que você sabe.

Todo dia é uma chance de construir reputação, mesmo no começo da carreira.