O garçom e a arte de falar com dois mundos
Uma língua com o cliente, outra com a cozinha, e nenhum pedido errado

Com este capítulo, a seção muda de pergunta. Os três capítulos anteriores trataram da pergunta “dá para contar com essa pessoa?”. Os três capítulos que começam aqui tratam da segunda pergunta, que é “eu entendo o que essa pessoa diz?”. A história também muda de lugar, e vai para um restaurante.
A primeira frase já apareceu na abertura desta seção, e este é o capítulo que responde essa frase. As quatro frases tratam a conversa como uma entrega de mão única. Uma pessoa fala, e a outra pessoa que se vire para entender.
Uma explicação só terminou quando a outra pessoa entendeu.
A mesa 12
A porta verde no meio da imagem que abre este capítulo separa o salão de um restaurante e a cozinha desse restaurante. Um garçom chamado Otávio atravessa essa porta a noite inteira.
O restaurante está cheio. As mesas estão ocupadas, a carne está na grelha, e os clientes conversam alto. O Otávio é um garçom experiente. O Otávio não é o garçom mais rápido do restaurante, nem o mais simpático. O Otávio é o garçom que nunca causa confusão entre a mesa e a cozinha.
Um cliente da mesa 12 chama o Otávio e pede um filé mignon ao ponto. O Otávio confirma o pedido com uma pergunta. “Perfeito. O senhor quer o filé ainda rosado no meio, suculento, ou prefere o filé bem passado, sem aquele líquido?”
O cliente pensa um pouco. O cliente responde que não gosta quando sai aquele suco da carne, mas que também não quer a carne dura.
O Otávio explica. “Entendi. Esse corte é alto, e bem passado o filé endurece. Eu posso pedir para a cozinha abrir o filé ao meio. Assim o filé cozinha por igual, fica sem líquido e continua macio. Pode ser?” O cliente sorri e diz que pode.
Na cozinha, o Otávio entrega o pedido de outro jeito. “Mesa 12: filé mignon borboleta, ponto para bem, sem sangue.” O chef entende na hora.
A língua certa com a pessoa certa
Repare no que o Otávio fez. Com o cliente, o Otávio não usou nenhuma palavra de cozinha. O Otávio falou de carne rosada, de suco e de carne dura, que são as palavras do cliente. Com essas palavras, o cliente conseguiu escolher.
Com a cozinha, o Otávio fez o contrário. O Otávio disse borboleta, que é o nome que os cozinheiros dão ao filé aberto ao meio. Para o chef, essa palavra é mais rápida e mais exata do que qualquer explicação.
E repare numa terceira coisa, que é fácil de não notar. Antes de falar qualquer uma das duas línguas, o Otávio perguntou. O cliente tinha dito “ao ponto”, e “ao ponto” não era o que o cliente queria.
Comunicar bem é falar a língua certa com a pessoa certa.
A mesma porta, num time de tecnologia
Quem trabalha com tecnologia também atravessa uma porta dessas o dia inteiro. De um lado da porta ficam as pessoas que constroem o sistema. Do outro lado da porta ficam as pessoas que pediram o sistema e que vão usar o sistema.
O primeiro erro é falar com quem pediu usando as palavras de quem constrói. A pessoa diz ao cliente que “o problema é de latência por invalidação de cache”. Você não precisa entender essa frase, e o cliente também não entende. Quem fala assim parece inteligente. Só que o cliente sai da conversa sem saber se o problema é grave, quanto tempo o conserto leva e o que muda no dia do cliente.
A mesma notícia, na língua do cliente, fica assim. “A tela demora porque o sistema busca de novo uma informação que o sistema já tinha. Dá para resolver, e o conserto leva dois dias.”
O segundo erro é o contrário do primeiro. A pessoa fala com o time de um jeito vago, e diz só que “precisa ficar mais rápido”. O time não sabe qual tela precisa ficar mais rápida, nem quanto mais rápida, nem para quem. Cada pessoa do time entende uma coisa diferente, e uma parte do trabalho precisa ser refeita.
O relatório do João
O João está começando a trabalhar num time pequeno. A pessoa que lidera o time pede ao João um relatório que saia num arquivo de planilha. O João entende o pedido como “gerar um arquivo”, e o João gera o arquivo.
O João não perguntou para que o arquivo servia. O arquivo ia ser lido por outro sistema, que era o sistema financeiro do cliente. Esse sistema só aceita as colunas separadas por ponto e vírgula, e só aceita os títulos das colunas em letra maiúscula.
Quando o arquivo do João chega ao sistema do cliente, nada funciona. As colunas saem fora de ordem, e os acentos viram símbolos estranhos. O João tenta explicar que não sabia que o arquivo precisava daquele formato.
O João não foi incompetente. O João fez bem feito o que tinha entendido. O problema é que o João não confirmou se tinha entendido, e o trabalho de uma semana virou duas semanas de trabalho refeito.
Meses depois, a mesma pessoa pede ao João outro relatório em arquivo. Desta vez o João responde com perguntas.
O que o João perguntou antes de começar
Estas perguntas poupam ao João a semana de trabalho que o João perdeu na primeira vez.
O João pergunta primeiro para que serve o arquivo. “Perfeito. Só para confirmar: esse arquivo vai ser lido por outro sistema? Esse sistema exige algum formato?”
A pessoa que lidera o time explica que o sistema do cliente só aceita ponto e vírgula separando as colunas, e títulos em letra maiúscula.
O João então diz o que vai fazer. “Certo. Eu gero o arquivo nesse formato, e eu testo o arquivo no sistema do cliente antes de te entregar. Pode ser?”
No dia seguinte o João entrega o arquivo, e o arquivo funciona na primeira tentativa.
O João não virou um programador melhor de um dia para o outro. O João virou um profissional mais claro, e por isso mais confiável. Comunicar bem depende de confirmar o que você entendeu. Comunicar bem não depende de falar mais.
Quem está começando costuma fazer o contrário. A insegurança faz a pessoa perguntar menos, por medo de parecer que não prestou atenção. O Otávio tem anos de salão, e o Otávio pergunta em toda mesa.
A inteligência artificial ajuda muito na travessia dessa porta. A ferramenta transforma uma explicação técnica em português comum, e transforma um pedido vago numa lista organizada. Vale usar a ferramenta para essas duas coisas. O que a ferramenta não tem é a resposta do cliente da mesa 12. A ferramenta não ouviu que aquele cliente não gosta do suco da carne, e a ferramenta não sabe para qual sistema o arquivo do João vai. Essa parte continua dependendo de alguém perguntar.
Com quem pediu, fale a língua do dia a dia. Com quem constrói, fale a língua exata. Com os dois, confirme antes o que você entendeu.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas que medem se você se faz entender dos dois lados.abrir
Em quase toda entrevista existe uma pessoa que não é da área técnica, ou uma pergunta feita para ver se você sabe falar com essa pessoa. As três perguntas abaixo são a porta da cozinha.
“Explica para mim, como se eu não fosse da área, uma coisa técnica que você aprendeu.”
- Que você entendeu o assunto a ponto de simplificar sem errar
- Que você escolhe um exemplo do dia a dia
- Que você sabe o que deixar de fora
- Que você não trata quem não sabe como uma pessoa menor
- Que você confere se a pessoa acompanhou
- Que você não se esconde atrás de palavra difícil
“Eu aprendi o que é uma cópia de segurança automática. É como tirar uma foto de todos os seus arquivos toda noite e guardar essa foto em outro lugar. Se o computador quebrar amanhã, você perde no máximo um dia de trabalho. Fez sentido, ou eu explico de outro jeito?”
“É basicamente um processo agendado que replica os dados num armazenamento redundante.”
Essa frase está certa, e quem não é da área não entendeu nada. A pergunta pedia uma tradução. A resposta falou a língua da cozinha para o cliente da mesa.
“Se eu te pedir agora uma tela de cadastro, o que você me pergunta antes de começar?”
Esta pergunta é um teste ao vivo. O entrevistador está fazendo o papel do cliente da mesa 12, e quer ver se você pergunta antes de anotar o pedido.
- Se você pergunta para que serve, antes de perguntar como fazer
- Se você pergunta quem vai usar
- Se você repete o que entendeu antes de começar
- Começar a descrever a solução
- Fazer só perguntas técnicas
- Dizer que você não tem nenhuma pergunta
“Eu perguntaria quem vai preencher esse cadastro, e em que situação. Eu perguntaria o que acontece com o cadastro depois, e se outro sistema vai ler esses dados. E eu repetiria o que eu entendi antes de começar, para você me corrigir.”
“Nenhuma pergunta, é tranquilo. Tela de cadastro eu já fiz várias.”
Essa resposta é o primeiro relatório do João. Quem responde assim vai fazer bem feito uma tela de cadastro, e só vai descobrir no fim se aquela era a tela que a pessoa precisava.
“Como você conversa com alguém muito mais técnico do que você?”
A porta tem dois lados, e esta pergunta olha para o lado da cozinha. Quem está começando costuma ter mais medo desse lado.
- Dizer com exatidão o que você fez e onde você travou
- Perguntar o nome certo das coisas, e passar a usar esse nome
- Avisar na hora o que você não entendeu
- Fingir que entendeu um termo
- Falar de um jeito vago para não errar
- Ficar calado para não parecer iniciante
“Eu tento ser exato. Eu digo o que eu fiz, o que eu esperava que acontecesse e o que aconteceu de verdade. Quando a pessoa usa uma palavra que eu não conheço, eu pergunto na hora o que a palavra quer dizer, e eu passo a usar a palavra certa.”
“Eu fico mais ouvindo. Eu prefiro não interromper com pergunta básica.”
Essa resposta parece respeito, e esconde um problema. A pessoa que não pergunta sai da conversa sem ter entendido. E a pessoa que explicou sai da conversa achando que foi entendida.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o mal-entendido nasce antes de o trabalho começar.abrir
Você recebeu um pedido de uma linha
A maior parte dos pedidos chega desse jeito. “Precisamos de um relatório.” “Tem que ficar mais rápido.” Quem pediu sabe o resto do pedido, e não escreveu o resto porque o resto parecia óbvio.
- Que você pergunte para que serve e quem vai usar
- Que você repita o pedido com as suas palavras
- Que você combine como vai mostrar o resultado
- Que você comece na hora, para mostrar serviço
- Que você devolva uma lista de vinte perguntas técnicas
- Que você exija tudo por escrito antes de se mexer
“Deixa eu confirmar se eu entendi. Você precisa de uma lista dos pedidos do mês, para levar na reunião de sexta. É isso? Tem alguma informação que não pode faltar nessa lista?”
Repetir o pedido com as suas palavras é a pergunta mais barata que existe. Se você entendeu errado, a pessoa corrige você em dez segundos.
Você precisa dar uma notícia técnica a quem não é da área
A notícia pode ser um atraso, um erro ou um limite do sistema. A pessoa que vai ouvir a notícia quer saber três coisas, e nenhuma das três coisas é técnica.
- Que você diga o que muda para a pessoa
- Que você diga o que a pessoa precisa fazer ou decidir
- Que você diga quando o problema se resolve
- A explicação da causa, com os nomes técnicos
- Uma frase tão simplificada que fica falsa
- Que você esconda a notícia atrás de palavra difícil
“O sistema vai ficar fora do ar no sábado de manhã, das oito ao meio-dia. Nesse período ninguém consegue emitir nota. Quem precisar emitir nota no sábado deve emitir na sexta. No sábado à tarde o sistema volta ao normal.”
Essa frase não explica por que o sistema vai parar, e ninguém vai sentir falta dessa explicação. Se alguém quiser saber o motivo, essa pessoa pergunta.
Você ouviu uma palavra que não conhece, no meio de uma reunião
Essa situação acontece com todo mundo, toda semana. A reunião segue, a palavra aparece de novo, e cada minuto que passa deixa a pergunta mais difícil de fazer.
- Que você pergunte na hora, ou logo depois da reunião
- Que você anote a palavra e passe a usar a palavra certa
- Que você pergunte a uma pessoa só, se não quiser perguntar na frente de todos
- Que você concorde com a cabeça sem ter entendido
- Que você procure sozinho depois e continue na dúvida
- Que você use a palavra sem saber o que a palavra quer dizer
“Desculpa interromper. Eu não conheço esse termo. Você me explica em uma frase?”
Quase sempre existe mais alguém na sala que também não conhecia o termo, e que agradece em silêncio.
O que muda daqui em diante
Os três primeiros capítulos desta seção falaram de cumprir o combinado. Este capítulo fala de uma coisa que vem antes de cumprir, que é entender o que foi pedido. Quando você entende o pedido errado, não adianta nada cumprir o pedido com perfeição.
No começo da carreira, a insegurança faz a pessoa perguntar menos. Com a maturidade, a pessoa pergunta mais.