# A hamburgueria e o valor de mostrar resultados

**Contar o quanto você se esforçou não é o mesmo que mostrar o que mudou**

> Capítulo 4.2 de *Antes do Código*, livro aberto e gratuito de Marcelo Castelo Branco.
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![O Marcos conta do trânsito toda noite. O dono já não escuta, e não é por mal.](https://marcelocastelo.io/assets/livros/antes-do-codigo/4-2-o-transito.webp)

*O Marcos conta do trânsito toda noite. O dono já não escuta, e não é por mal.*

Este capítulo continua a história do capítulo anterior, na mesma hamburgueria. Se você ainda não leu o capítulo anterior, vale ler primeiro. O capítulo anterior terminou dizendo que o silêncio de quem te lidera é espaço. Este capítulo é sobre o que você diz quando resolve usar esse espaço, e sobre o jeito mais comum de usar mal esse espaço.

> — Eu me mato de trabalhar e ninguém vê.
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> — Hoje foi puxado, mas eu dei conta de tudo.
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> — Se eu não falar que foi difícil, vão achar que foi fácil.
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> — Quem fica contando o que fez é puxa-saco.

As três primeiras frases contam esforço. A quarta frase desiste de contar qualquer coisa. Este capítulo mostra um terceiro caminho, que é contar o que mudou por causa do seu trabalho.

> O seu esforço é verdadeiro. Só que contar o esforço não entrega nada a quem está ouvindo.

## “Entreguei tudo, patrão”

Na imagem que abre este capítulo, o Marcos está na porta da hamburgueria, no fim da noite, contando do trânsito. O dono está sentado à mesa, de cabeça baixa, fazendo as contas. O dono é você de novo.

O Marcos já trabalha com você há algumas semanas. O Marcos trabalha direito, entrega tudo no horário e nunca deu problema.

Só que acontece uma coisa curiosa. Todo fim de expediente o Marcos chega animado e conta como foi a noite. Num dia, o Marcos diz “patrão, entreguei todos os pedidos hoje, nenhum problema!”. No dia seguinte, o Marcos diz “hoje foi pesado, muito trânsito, mas entreguei tudo”. No outro dia, o Marcos diz “quase fui fechado por um motorista, mas consegui fazer todas as entregas”.

O Marcos fala com orgulho, querendo mostrar que está comprometido. Você sorri e responde “beleza, valeu”.

Com o tempo, **você para de ouvir**. Você não para de ouvir por falta de consideração. Você para de ouvir porque entregar sem problema é o trabalho do Marcos, e enquanto as entregas acontecem a sua cabeça está em outros lugares. Você precisa comprar ingredientes, pagar fornecedor, consertar o freezer e fechar o caixa.

## Quarenta e cinco minutos

Agora troque de papel. Imagine que você tem um colega de trabalho que mora a quinze minutos da empresa e vai de carro, com ar-condicionado. Você pega três ônibus e um metrô, e leva três horas para chegar, no calor e em pé.

Um dia esse colega chega irritado. “Que absurdo esse trânsito, hoje eu demorei quarenta e cinco minutos!”

Você olha para o colega e pensa que quarenta e cinco minutos é o tempo que você leva só para trocar de ônibus. O colega não é uma pessoa ruim, e o colega não está exagerando de propósito. Para o colega, quarenta e cinco minutos de trânsito são mesmo um dia ruim, porque o colega nunca passou três horas dentro de ônibus para chegar ao trabalho. Só que **o problema do colega e o seu problema têm tamanhos diferentes**, e a reclamação do colega soa fora de proporção para você.

O dono da hamburgueria escuta o Marcos do mesmo jeito. O trânsito, o motorista imprudente e a noite puxada fazem parte do trabalho de entregar. Enquanto o Marcos fala do trânsito, o dono está pensando em dívida, imposto, aluguel e salário para pagar. Na cabeça do dono, a frase do Marcos chega como o trânsito de quarenta e cinco minutos.

> O esforço que para você é enorme pode ser, para quem te ouve, a parte normal do trabalho.

## As quatro frases

Agora imagine o Marcos chegando no fim da noite com outro tipo de frase.

### O que o Marcos poderia dizer no fim da noite

*As quatro frases*

Estas quatro frases poupam o Marcos de passar meses falando sem ser ouvido.

**Um resultado, com número.** “Patrão, estamos há três dias sem atrasar nenhum pedido. Eu perguntei a alguns clientes, e os clientes elogiaram o tempo de entrega.”

**Um risco, antes de o risco virar problema.** “Patrão, a moto está há quatro meses sem trocar o óleo. Quer que eu leve para trocar? Eu posso agendar.”

**Uma solução para um aperto que vem vindo.** “Patrão, o movimento do fim de semana está aumentando. Eu tenho um amigo entregador que pode ajudar. Quer o contato dele?”

**Um sinal de que o negócio está crescendo.** “Patrão, nós entregamos dez por cento a mais de pedidos do que na semana passada, e sem nenhum atraso.”

Com essas frases, você passa a notar o Marcos. E o Marcos não pediu atenção em nenhuma das quatro frases. O Marcos trouxe informações que tiram uma preocupação da sua cabeça, ou que mostram que a hamburgueria está indo bem.

Repare que em nenhuma das quatro frases o Marcos fala do próprio Marcos. **O Marcos fala da hamburgueria**.

## A mesma troca, no seu trabalho

No seu trabalho acontece igual. Quando você chega para quem te lidera e diz “hoje foi pesado, mas consegui entregar tudo”, você está mostrando esforço. Quem te lidera já conta com o seu esforço. O que quem te lidera ainda não sabe é o que mudou por causa do seu trabalho.

**A frase de esforço**

- “Hoje foi pesado, mas eu entreguei tudo.”
- “Eu fiquei até tarde para resolver aquele erro.”
- “Deu muito trabalho, mas eu terminei.”

**A frase de resultado**

- “Nós terminamos tudo que estava combinado para estas duas semanas, no prazo e sem nenhum erro grave.”
- “Eu achei o que estava atrasando o time e corrigi. Aquele erro não deve voltar.”
- “Eu olhei as últimas entregas, e a quantidade de coisa que nós precisamos refazer caiu um quinto.”

As frases da direita falam a língua de quem lidera, que é a língua do resultado, do combinado cumprido e do alívio.

Nada disso quer dizer que o seu esforço não vale. O seu esforço é de verdade. E existe uma hora certa de falar do esforço, que é a hora em que **o esforço está passando do limite e você precisa de ajuda**. O que este capítulo diz é que o esforço, contado sozinho, não informa nada a quem ouve.

E contar resultado não é se exibir. Quem se exibe fala de si. O Marcos das quatro frases fala do que o dono precisa saber.

> Quem reclama do esforço busca compreensão. Quem mostra o resultado conquista confiança.

## Levar para a entrevista

*Três perguntas em que a resposta de esforço perde para a resposta de resultado.*

Numa entrevista, quase toda pergunta sobre o seu passado pode ser respondida de dois jeitos. Você pode contar o quanto trabalhou, ou você pode contar o que mudou. As três perguntas abaixo são as perguntas em que essa diferença mais aparece.

### “Do que você mais se orgulha no seu último trabalho?”

**O avaliador técnico quer ver**

- Um resultado que dá para conferir
- O que mudou para quem usava o seu trabalho
- A sua parte, separada da parte do time

**O avaliador de pessoas quer ver**

- Que você fala do trabalho, e não do seu sacrifício
- Que você dá crédito a quem ajudou
- Que o seu orgulho vem de uma coisa que serviu a alguém

**Boa resposta**

“Eu me orgulho de ter diminuído a fila do atendimento. Eu reparei que metade das ligações era a mesma dúvida. Eu escrevi a resposta num lugar onde o cliente achava sozinho, e em um mês as ligações sobre aquela dúvida caíram pela metade. Quem me mostrou onde ficavam os números foi uma colega do atendimento.”

**Resposta ruim**

“Eu me orgulho da minha dedicação. Eu era sempre o primeiro a chegar e o último a sair.”

Essa resposta conta as horas, e não conta o que as horas produziram. **Quem ouve fica sem saber se a dedicação serviu para alguma coisa**.

### “Como foi o seu último projeto?”

Esta pergunta é aberta de propósito. A pergunta deixa você escolher se vai contar a dificuldade ou o resultado.

**O que eles querem saber**

- O que o projeto resolveu, em uma frase
- O que ficou pronto e o que não ficou
- O que você aprendeu e mudaria no próximo projeto

**O que derruba**

- Uma lista de tudo que deu trabalho
- Uma lista das ferramentas que você usou
- Reclamar do prazo ou das pessoas

**Boa resposta**

“O projeto era para o pessoal da loja parar de anotar pedido no papel. Ficaram prontas a parte de registrar o pedido e a parte de consultar o estoque. A parte de emitir nota não ficou pronta no prazo, e eu avisei desse atraso duas semanas antes. O que eu faria diferente é mostrar a tela para quem ia usar logo no começo.”

**Resposta ruim**

“Foi bem puxado. A gente tinha pouco tempo, o pedido mudou várias vezes, e eu virei algumas noites para dar conta.”

Tudo nessa resposta pode ser verdade, e a resposta inteira é o trânsito do Marcos. No fim dessa resposta, quem ouve ainda não sabe o que o projeto fazia, nem se o projeto funcionou.

### “Como você costuma avisar quem te lidera sobre o andamento do seu trabalho?”

Poucos candidatos pensaram nesta pergunta antes da entrevista. Esta pergunta mede exatamente o assunto deste capítulo.

**Boa direção**

- Avisar em momentos combinados, e não o tempo todo
- Dizer o que ficou pronto, o que falta e o que pode atrasar
- Levar o risco junto com uma sugestão

**Direção ruim**

- “Eu aviso quando termino”
- Mandar mensagem a cada passo
- Só aparecer quando dá problema

**Boa resposta**

“Eu combino com quem me lidera um momento por semana. Nesse momento eu digo o que ficou pronto, o que falta e o que eu acho que pode atrasar. Se eu vejo um risco, eu levo o risco junto com uma ideia do que fazer. Fora desse momento, eu só interrompo se alguma coisa for travar outra pessoa.”

**Resposta ruim**

“Eu vou avisando conforme vou fazendo, para a pessoa ver que eu estou trabalhando.”

O fim dessa resposta entrega o motivo dos avisos. Avisar para mostrar que você está trabalhando é contar esforço. **Depois de uma semana, quem recebe esses avisos para de ler os avisos**, do mesmo jeito que o dono parou de ouvir o Marcos.

## Levar para o trabalho

*Três situações em que você precisa contar o que fez.*

### Chegou o fim do dia, e você quer contar que foi puxado

Essa vontade é legítima. O dia foi puxado de verdade, e contar alivia. O que vale decidir é para quem você conta.

**Esperam de você**

- Que você conte o cansaço para um colega ou para alguém de casa
- Que você conte a quem te lidera o que ficou pronto
- Que você avise quando o cansaço virar risco para a entrega

**Não esperam de você**

- Um relato diário das dificuldades
- Que você esconda que está no limite
- Que você espere reconhecimento pelo cansaço

**O que dizer**

“Eu fechei as três tarefas de hoje. A tarefa de amanhã depende de uma resposta do cliente, e eu já pedi essa resposta.”

Essa frase tem o mesmo tamanho de “hoje foi puxado, mas entreguei tudo”. A diferença é que quem ouve essa frase sai da conversa sabendo de duas coisas que não sabia antes.

### Você viu um risco que ninguém pediu para você olhar

Este é o óleo da moto. Ninguém pediu ao Marcos que cuidasse da manutenção. Só que o Marcos é a pessoa que anda na moto todo dia.

**Esperam de você**

- Que você conte o risco cedo, em uma frase
- Que você diga o que pode acontecer se ninguém fizer nada
- Que você ofereça fazer uma parte

**Não esperam de você**

- Que você guarde o risco porque não é a sua tarefa
- Que você resolva sozinho, sem combinar
- Que você conte o risco em tom de reclamação

**O que dizer**

“Eu reparei que a cópia de segurança não roda há duas semanas. Se o servidor der problema, nós perdemos esse período. Quer que eu veja o que travou?”

**Quem está mais perto do trabalho enxerga o risco antes de todo mundo**. Um risco contado cedo é uma das informações mais valiosas que você pode levar a quem te lidera.

### Você não tem número nenhum para mostrar

Nem todo trabalho vem com número, principalmente no começo. O Marcos também não tinha número no primeiro dia. O Marcos passou a ter número quando começou a contar os dias sem atraso.

**Esperam de você**

- Que você comece a anotar alguma coisa simples
- Que você pergunte a quem usa o seu trabalho se o trabalho serviu
- Que você conte o que mudou, mesmo sem número

**Não esperam de você**

- Que você invente um número
- Que você enfeite o resultado
- Que você fique calado até ter um resultado grande

**O que dizer**

“Eu não tenho número ainda. O que eu sei é que o pessoal do atendimento parou de me perguntar sobre aquela tela, e antes o pessoal perguntava todo dia.”

Uma pergunta que parou de chegar é um resultado, e é um resultado fácil de conferir.

## O que muda daqui em diante

**Contar o que você fez**

- Antes: Contar o quanto você se esforçou
- Agora: Contar o que mudou por causa do seu trabalho

**O seu esforço**

- Antes: A prova do seu valor
- Agora: Uma coisa verdadeira, que quem te lidera já espera de você

**A dificuldade do dia**

- Antes: Um assunto para levar sempre a quem te lidera
- Agora: Um assunto para levar a quem te lidera quando a dificuldade vira risco

**Falar de resultado**

- Antes: Coisa de puxa-saco
- Agora: Entregar a quem te lidera uma informação que tira uma preocupação

**Um risco fora da sua tarefa**

- Antes: Problema de outra pessoa
- Agora: A informação mais útil que você pode levar, porque você viu primeiro

- Antes de contar o seu dia, separar o que foi esforço do que foi resultado
- Dizer o que ficou pronto, o que falta e o que pode atrasar
- Levar o risco junto com uma sugestão
- Anotar um número simples do seu trabalho, toda semana
- Guardar o desabafo para quem pode acolher, e o resultado para quem precisa decidir

O capítulo anterior ensinou a ler o silêncio de quem te lidera. Este capítulo ensinou o que colocar no lugar do silêncio, quando você resolver falar. **A frase certa fala do que a pessoa do outro lado precisa saber**, e não de quanto custou a você.

> A empresa já sabe que você trabalha duro. O que a empresa quer saber é se o que você faz está funcionando.

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*Capítulo 4.2 de **Antes do Código** — O guia para quem quer entender a tecnologia — e não só usá-la.*

*O livro inteiro, de graça: https://marcelocastelo.io/livros/antes-do-codigo*
