Como as vagas são montadas
O que a empresa está comprando quando abre uma vaga

O capítulo anterior mostrou que a tecnologia de uma empresa quase nunca saiu de uma comparação: ela é o retrato de quem estava lá quando aquilo começou. A lista de requisitos de uma vaga funciona pelo mesmo mecanismo, e quase ninguém lê ela assim.
Porque tem uma cena que se repete. Você abre um anúncio de vaga de início de carreira e ele pede oito coisas diferentes, três anos de experiência e duas palavras que você nunca viu. Você fecha o anúncio.
A lista de uma vaga não descreve a pessoa que eles querem. Descreve o buraco que abriu na empresa.
A loja no fim do dia
Olhe a loja da imagem que abre este capítulo. A porta já está fechada, é fim de expediente, e ainda tem alguém atrás do balcão escrevendo num papel. É esse papel que interessa.
A história começa antes. Você abriu uma loja de roupas pequena e faz tudo sozinho: escolhe e compra as peças, organiza o estoque, atende quem entra, escreve as postagens da loja na internet e fecha o caixa no fim do dia. É cansativo e funciona, porque o volume é pequeno e tudo passa pela sua mão.
Aí as vendas crescem. Entra mais gente, sai mais peça, chegam mais caixas, e chega o dia em que você não dá mais conta. O aperto veio do crescimento, não do fracasso, e é esse dia que está na imagem.
Repare no que você escreve nesse papel. Você não escreve o nome de um cargo. Você escreve o que sobrou: o estoque que está encostado há duas semanas, o caixa que você fecha de madrugada, as postagens que não saem desde o mês passado.
O anúncio de vaga que você lê na internet é uma lista dessas, passada a limpo.
Quem resolve aquela lista
E que tipo de pessoa resolve uma lista dessas? Não é especialista em nada do que está escrito ali. É alguém disposto, curioso, que aprende rápido e se vira com o que aparecer.
- Alguém que atenda bem e embale direito
- Que organize o estoque do jeito que der
- Que cuide das postagens quando sobrar tempo
- Que aprenda no caminho o que faltar
- Um especialista em moda
- Alguém que faça uma coisa só, ainda que muito bem
- Quem precisa de processo pronto para começar
- Quem espera a tarefa chegar escrita
A vaga da loja pequena é comprida e variada porque a dona está entregando pedaços de cinco trabalhos diferentes, os pedaços que sobraram de cada um. Não existe, ali dentro, nenhum desses cinco trabalhos inteiro.
A mesma loja, cinco anos depois
Agora a loja cresceu de verdade. São duas lojas, várias marcas, venda pela internet e entrega em casa.
E o que ela procura muda. Você para de precisar de quem faz de tudo um pouco e passa a precisar de gente que faz uma coisa e faz bem: alguém que entenda de moda e de atendimento, alguém que dê conta de estoque em volume grande, alguém que cuide dos anúncios e saiba ler o resultado deles.
Repare que ninguém piorou no caminho. A pessoa que entrou na primeira vaga continua sendo a mesma, e continua sendo boa naquilo. O que aconteceu é que a necessidade da loja virou outra.
A vaga mudou porque a loja mudou. Não porque a pessoa da primeira vaga tinha ficado pequena.
Agora leia o anúncio de novo
Troque a loja por uma empresa de tecnologia e a lista que te assustou se explica sozinha.
Empresa que ainda está começando, com pouca gente, nenhum processo fechado e tudo passando pela mão de quem fundou, escreve anúncio comprido e variado. Um pouco de banco de dados, um pouco de tela, um pouco de deixar o sistema no ar. Não é porque esperam alguém excelente em cada item. É porque ali dentro ninguém tem função fechada ainda, e quem entrar vai encostar em tudo.
Empresa grande e organizada escreve anúncio curto. “Precisamos de alguém com boa base em banco de dados”, e acabou. A lista encurta porque, do lado, já existe gente cuidando do resto.
- Empresa em construção
- Pouca gente, cada uma fazendo várias coisas
- Processo sendo inventado no caminho
- Você aprende muito, e aprende bastante sozinho
- Empresa consolidada
- Time por assunto, com alguém de quem perguntar
- Processo pronto para seguir
- Você vai fundo numa coisa e aprende a trabalhar em escala
Nenhuma das duas é melhor. Elas pedem coisas diferentes de você, e dão coisas diferentes em troca. A maior parte das frustrações do primeiro ano vem de entrar numa achando que era a outra.
“Ninguém domina tudo isso”
Essa frase é verdadeira. Ela também é o motivo mais comum de gente boa não se candidatar, e é por isso que ela precisa de resposta.
Ninguém domina mesmo, e quem escreveu o anúncio sabe disso. A lista não é uma prova com nota de corte: é o desenho do buraco, feito por alguém que listou tudo que anda sobrando. Se você cobre uma parte e sabe se virar no resto, você é candidato de verdade, não candidato por otimismo.
É exatamente o que a loja queria do primeiro funcionário. Ela não procurava especialista. Procurava alguém que fizesse aquelas coisas deixarem de ser problema.
A vaga não procura quem sabe tudo da lista. Procura quem faz a lista parar de doer.
Como ler um anúncio de vaga
O que olhar antes da lista de requisitos
Olhe estas três coisas antes de conferir se você tem os requisitos. Elas evitam se candidatar às cegas e descobrir a empresa só no segundo mês.
Lista comprida e variada é empresa em construção. Lista curta e com nome é empresa organizada. Conte antes de conferir se você tem cada item: o número já te diz onde você está entrando.
Procure se o anúncio fala em time, em alguém revisando o seu trabalho, em quem vai te acompanhar no começo. Empresa em construção quase nunca tem isso, e aprender sozinho é bem mais lento do que parece de fora. Saber disso antes vale mais do que descobrir depois.
Abra outras vagas que ela publicou. O que aparece nas três é o que aquela casa faz o dia inteiro. O que aparece em uma só costuma ser vontade de quem escreveu naquele dia.
Antes de conferir se você cabe na vaga, descubra que empresa aquela vaga está descrevendo.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas em que o tamanho da empresa está sendo medido, não você.abrir
As três perguntas abaixo parecem ser sobre você e são, em boa parte, sobre se você entendeu onde está se candidatando. Quem responde igual para uma empresa de cinco pessoas e para uma de cinco mil está respondendo errado em uma das duas.
“A vaga pede várias coisas. Com quais delas você já mexeu?”
- Que você separa o que já fez do que só leu
- Que tem profundidade em alguma coisa da lista
- Que sabe como faria para cobrir o resto
- Que você não aumenta o que sabe
- Que não se encolhe pelo que falta
- Que consegue falar do próprio nível sem drama
“De ponta a ponta eu já fiz duas dessas: banco de dados e a parte de tela. As outras eu só encostei, e falo isso sem problema. Se precisar de alguma delas na primeira semana, eu consigo me virar, mas ia pedir para alguém olhar o que eu fizer antes de subir.”
“Já mexi com todas, em maior ou menor grau.”
Uma frase que não diz nada e some no meio de dez candidatos iguais. Pior: ela vai ser testada na pergunta seguinte, e aí a conversa passa a ser sobre a sua honestidade em vez do seu trabalho.
“Como você imagina os seus primeiros meses aqui?”
É aqui que dá para mostrar que você leu o tamanho da casa. A mesma resposta não serve para as duas empresas.
- Que você entendeu o que a empresa faz o dia inteiro
- Que planeja entender antes de propor
- Que sabe onde vai ser útil primeiro
- Expectativa do tamanho certo
- Que você não vai se assustar com o improviso, nem se entediar com o processo
- Que pensou no assunto antes de entrar na sala
“Imagino encostando em bastante coisa e sem ninguém para perguntar o tempo todo. Nos primeiros meses eu ia querer entender o caminho que o dinheiro e o dado fazem aqui dentro, e ir resolvendo o que aparecer, anotando o que aprendo para não precisar descobrir duas vezes.”
“Imagino uma parte bem definida, com gente do lado revisando o que eu faço. Nos primeiros meses eu ia querer entender o pedaço que é meu a fundo e aprender como vocês trabalham, antes de querer opinar no resto.”
“Pretendo aprender bastante e crescer rápido dentro da empresa.”
Serve para qualquer vaga do mundo, e é justamente esse o problema: quem ouve não consegue distinguir você de quem não leu o anúncio.
“Você tem alguma pergunta para a gente?”
Quase todo mundo trata como despedida. É a única parte da entrevista em que você escolhe o assunto, e é onde este capítulo mais te ajuda.
- Pergunta sobre o trabalho de verdade
- Curiosidade pelo problema deles, não pelo benefício
- Que você quer saber onde vai pisar
- Que você está escolhendo também, e não só sendo escolhido
- Interesse que não é decorado
- Que você se importa com quem vai trabalhar junto
“Quem faria hoje o trabalho que essa vaga vai assumir?” “Quando alguém entra, tem alguém revisando o trabalho nos primeiros meses?” “O que precisa acontecer para vocês olharem daqui a seis meses e acharem que a contratação deu certo?”
“Não, acho que vocês já explicaram tudo.”
Não é erro grave, e é oportunidade jogada fora. As três perguntas acima dizem, sem você precisar afirmar, que você entende que uma vaga é um buraco que alguém precisa tapar.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o trabalho não cabe no que a vaga dizia.abrir
Te pedem uma coisa que não estava na vaga
Acontece muito, e acontece mais em empresa pequena. Você entrou para uma coisa e te pedem outra, que ninguém tinha mencionado. A primeira reação é achar que te enganaram.
- Que você faça, se estiver ao seu alcance
- Que diga com clareza o que vai atrasar por causa disso
- Que avise quando for coisa que você não sabe fazer
- Responder que não é a sua função
- Aceitar calado e deixar o resto atrasar sem avisar
- Fingir que sabe fazer para não decepcionar
“Consigo pegar isso. Só quero combinar uma coisa: com isso no meio, a outra entrega sai uns dois dias depois. Tudo bem assim, ou você prefere que eu termine a primeira antes?”
Isso não é resistência: é mostrar a conta. Em empresa pequena, quem só diz “consigo” acaba com três coisas pela metade, e a culpa disso sobra para ele.
Não tem ninguém para te ensinar
Você entrou numa empresa em construção e descobriu que não existe quem revise o seu trabalho. É a parte da vaga generalista que o anúncio nunca escreve, e é a que mais assusta quem está começando.
- Que você procure a resposta antes de perguntar
- Que pergunte assim que travar de verdade, sem gastar três dias
- Que deixe escrito o que descobriu, para o próximo
- Ficar parado esperando alguém te ensinar
- Sumir por uma semana com um problema
- Decidir sozinho uma coisa que muda o rumo de todo mundo
“Eu tentei por aqui e por aqui, e travei neste ponto. Antes de eu seguir por um caminho que é difícil de desfazer, você tem dez minutos para eu te mostrar?”
Essa frase faz duas coisas ao mesmo tempo: mostra que você tentou, e pede ajuda antes do prejuízo e não depois.
A empresa cresceu e a sua função encolheu
Você entrou fazendo de tudo. A empresa cresceu, contratou especialista para as partes que eram suas, e de repente o seu trabalho é um pedaço pequeno do que era. Dá uma sensação ruim, e ela merece ser dita: parece rebaixamento.
- Que você entregue o que era seu de um jeito que o outro consiga continuar
- Que escolha em qual pedaço quer ficar bom
- Que fale sobre isso com quem decide, cedo
- Segurar informação para continuar sendo necessário
- Levar a mudança como castigo pessoal
- Ir embora sem nunca ter dito que se incomodou
“Com a chegada de mais gente, boa parte do que era meu passou para outros, e eu queria conversar sobre onde eu sou mais útil agora. Tenho preferência por um lado, mas quero ouvir onde você acha que eu rendo mais.”
Quem segura informação para continuar insubstituível costuma conseguir exatamente isso, e fica preso no mesmo lugar por anos.
Ser insubstituível numa tarefa é o jeito mais rápido de nunca sair dela.
O que muda daqui em diante
Empresa pequena quer quem faça o possível. Empresa grande quer quem faça o preciso. O anúncio está te dizendo qual das duas ela é.