O funcionário revoltado e o patrão que ele se tornou
Como é fácil julgar a cadeira em que você nunca sentou

O capítulo anterior terminou numa pergunta que o Tonho fazia antes de falar de um problema do time, que era “eu também tenho feito isso?”. Este capítulo leva a mesma pergunta para um lugar onde ela é mais difícil de responder, porque você nunca esteve lá. Esse lugar é a cadeira de quem decide.
De fora, essa cadeira parece simples. Dá para ver tudo que a pessoa sentada nela faz de errado, e quase nada do que ela está pesando antes de decidir.
Pode ser que as quatro estejam certas. Existe chefe ruim e existe empresa injusta, e este capítulo não vai dizer o contrário. Este capítulo é sobre o que acontece com quem diz essas frases no dia em que a cadeira passa a ser dele.
É fácil saber o que é justo enquanto quem paga a conta é outra pessoa.
“Se a empresa fosse minha”
Na imagem que abre este capítulo há uma cadeira vazia diante de uma tela, e na tela um homem parado no meio de uma frase. O homem da tela e o dono da cadeira são a mesma pessoa, com alguns anos de diferença. O nome dele é Danilo.
Durante anos Danilo trabalhou numa grande empresa de tecnologia. Danilo era competente, esforçado, e sempre o primeiro a reclamar. Quando Danilo ouvia falar do lucro da empresa, resmungava que o time se matava de trabalhar para deixar o dono rico. Quando o chefe pedia hora extra, Danilo bufava e dizia que, se tivesse a própria empresa, trataria as pessoas de outro jeito.
Nas redes sociais Danilo escrevia sobre liberdade, propósito e fugir do sistema.
A empresa dele
Um dia Danilo pediu demissão e abriu o próprio negócio, um canal de tecnologia que vendia cursos e consultoria. No começo Danilo publicava vídeos sobre ética, justiça e respeito no trabalho, e prometia que no negócio dele ninguém seria explorado.
O canal cresceu, e Danilo precisou de ajuda. Danilo contratou um editor de vídeo sem carteira assinada, porque registrar “é caro demais”. Depois Danilo contratou uma assistente sem contrato nenhum, porque “aqui somos uma família”. Quando o lucro apareceu, Danilo chamou mais duas pessoas e prometeu um bônus que nunca disse de quanto seria.
Um dia a assistente pediu aumento. Danilo respondeu irritado. “Você devia ser mais grata. Está aprendendo comigo, ganhando experiência.” Era a mesma frase que o antigo chefe dizia para ele, e que ele tinha jurado nunca repetir.
Cansada de promessa vaga, a assistente pediu demissão e abriu o próprio canal, usando o que tinha aprendido ali. O canal da assistente cresceu rápido. Danilo ficou furioso. Danilo chamou a moça de ingrata, disse que tinha dado a oportunidade e levado uma facada nas costas. Eram, quase palavra por palavra, as coisas que o antigo patrão um dia tinha dito sobre ele.
- Que valorizava a liberdade
- Que tinha empatia
- Que respeitava as pessoas
- Que ia dividir os frutos
- Esperava todo mundo disponível a qualquer hora
- Ficava irritado quando alguém faltava por motivo pessoal
- Não respondia mensagem quando o assunto era dinheiro
- Dizia que “o momento não era ideal” sempre que o lucro aumentava
Quando alguém questionava, Danilo respondia que empreender é difícil e que ninguém ali entendia a pressão. Essa era a justificativa que Danilo desprezava quando vinha do antigo patrão.
O vídeo antigo
Certa noite, revendo os vídeos do canal, Danilo abriu uma gravação dos primeiros dias. Na gravação Danilo dizia: “Eu quero construir um negócio justo, humano, onde ninguém precise abrir mão da vida pra trabalhar”.
Danilo ficou em silêncio, ouvindo a própria voz. O vídeo parecia de outra pessoa.
Naquela noite Danilo entendeu que falar de justiça tinha sido fácil porque ele só conhecia um lado. Danilo nunca tinha carregado a responsabilidade, as decisões difíceis e as consequências que vêm junto com o poder de escolher.
E Danilo entendeu uma coisa menos confortável. No fundo Danilo nunca tinha querido justiça, e sim estar do lado que manda.
Quem odiava o patrão e repete os atos dele quando chega a sua vez não se libertou de nada. Só trocou de lugar.
Você já senta nessa cadeira
É tentador ler essa história como a de um sujeito hipócrita e seguir adiante. Só que Danilo não agia por maldade. Danilo acreditava de verdade que era um patrão legal, e se enganava com a melhor das intenções.
E a cadeira aparece na vida muito antes de alguém ter uma empresa. Você senta nela toda vez que é você quem paga, quem pede ou quem decide. Senta nessa cadeira a pessoa que reclama de exploração e contrata diarista sem registro. Senta nessa cadeira a pessoa que fala de empatia e grita com o entregador porque o pedido atrasou. Senta nessa cadeira a pessoa que critica chefe abusivo e exige de um prestador de serviço uma entrega urgente no domingo.
A maioria de nós quer um mundo justo até o ponto em que a justiça começa a custar alguma coisa.
Esse comportamento é mais falta de prática do que maldade. Ninguém treina ser justo numa posição em que nunca esteve.
A mesma história, num time de tecnologia
Em tecnologia a história se repete com outra roupa. A pessoa que não suportava o gestor abre uma empresa pequena e promete um lugar sem hierarquia, com liberdade e propósito. Seis meses depois essa pessoa está contratando sem carteira para pagar menos, pedindo doze horas por dia “porque é fase de crescimento”, e comprando pizza na sexta para compensar o cansaço do time.
E essa pessoa repete que ali ninguém é número, que todos são uma família. O mais curioso é que a pessoa acredita no que diz.
Você não precisa abrir empresa para passar por isso. A primeira cadeira costuma ser pequena. A primeira cadeira aparece no dia em que pedem para você acompanhar a pessoa nova, revisar o trabalho de alguém ou repartir as tarefas da semana. O jeito como você trata quem depende de você nesse dia é o ensaio do que você vai fazer quando a cadeira for maior.
Lembra do mecânico que foi trabalhar na sala de vidro, e dos antigos colegas que passaram a olhar para ele com desconfiança? Aquela história era contada de dentro da sala. Este capítulo fica do outro lado do vidro, no lugar de quem desconfia.
Discordar continua valendo
Nada disso quer dizer que você tem de concordar com tudo. Você tem todo o direito de questionar, de discordar e de brigar por mudança.
O que a história pede é que você entenda como a coisa funciona antes de rejeitar. Quem entende consegue escolher o que quer mudar. Quem só rejeita acaba repetindo o que criticava assim que tem a chance, como aconteceu com Danilo.
Trabalhar para outra pessoa é cumprir uma parte dentro de uma coisa maior, com alguém confiando que você vai cumprir. Quem aprende a fazer isso com dignidade chega mais preparado ao dia em que for a sua vez de comandar.
Três perguntas antes de criticar quem decide
Fazer estas perguntas antes poupa você de uma crítica que, anos depois, vai servir para você mesmo.
O que essa pessoa sabe que eu não sei? Quase sempre existe um prazo, um cliente ou uma conta que não chegou até você. Perguntar custa menos do que supor.
O que eu faria no lugar dela, com o mesmo dinheiro e o mesmo prazo? Sem essa segunda metade, a resposta é sempre fácil. Com dinheiro e prazo sobrando, qualquer pessoa é um ótimo chefe.
O que eu aceito pagar para que seja do jeito que eu acho justo? Todo direito custa alguma coisa para alguém. Se a sua ideia de justiça não custa nada a você, ela ainda não foi testada.
Danilo demorou, mas um dia reuniu a equipe. “Eu critiquei o meu antigo chefe por ser frio e explorador, e percebi que fiquei igual. Quero fazer diferente. Quero que a gente repense juntos o que é justo aqui.” Foi constrangedor no começo, e um alívio depois. Danilo parou de tentar parecer o patrão legal e passou a tentar ser coerente.
O desafio não é derrubar o sistema. É não se corromper no dia em que o sistema for você.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre chefes, e sobre quem já dependeu de você.abrir
Toda entrevista tem um momento em que você fala de quem mandava em você. O entrevistador escuta essa parte pensando numa coisa só, que é como você vai falar dele daqui a um ano.
“Como era o seu último chefe?”
- Que você descreve o que a pessoa fazia, e não só o que você achava dela
- Que entende a pressão que ela recebia
- Que tirou alguma coisa útil, mesmo de um chefe ruim
- Que você discorda sem desprezar
- Que não aparece como vítima em toda história
- Que consegue dizer uma coisa boa sem ironia
“Ele cobrava muito prazo e explicava pouco, e isso me incomodava. Com o tempo eu entendi que ele recebia a mesma cobrança de cima, também sem explicação. Aprendi com ele a avisar cedo quando uma coisa vai atrasar. E aprendi que, quando for a minha vez, eu quero explicar o motivo junto com o prazo.”
“Era daqueles que só sabem cobrar. Nunca fez o que a gente fazia e queria mandar em tudo.”
Essa resposta pode ser a pura verdade. O problema é que Danilo dizia exatamente isso. Quem ouve não tem como conferir o seu chefe, só tem como conferir o jeito de você falar dele.
“O que você faria diferente se fosse o gestor do seu último time?”
Esta é a pergunta do “se a empresa fosse minha”, feita de propósito. A resposta fácil é uma lista de mudanças. A resposta boa mostra que você sabe quanto cada mudança custa.
- Se a sua ideia cabe no dinheiro e no prazo que o time tinha
- Se você sabe quem perderia com a mudança
- Se você já tentou algo parecido, em tamanho pequeno
- Uma lista de coisas boas sem custo nenhum
- “Eu ouviria mais as pessoas”, sem dizer como
- Tratar o gestor antigo como incompetente
“Eu teria reservado um dia por mês para o time arrumar o que estava improvisado. Sei que isso custa um dia de entrega, e que alguém teria de explicar esse dia para o cliente. Eu tentaria negociar antes, mostrando quantas horas a gente perdia por mês por causa dos improvisos.”
“Eu daria mais liberdade para o time e cobraria menos. Gente feliz produz mais.”
Essa é uma frase bonita, e Danilo publicava frases iguais antes de abrir a empresa. A frase não diz o que acontece na semana em que a liberdade do time e o prazo do cliente não cabem juntos.
“Você já teve alguém dependendo de você no trabalho? Como foi?”
Para quem está começando, parece que a resposta é “não”. Quase sempre a resposta é “sim”. Vale o colega mais novo que vivia perguntando, o trabalho em grupo em que você dividiu as tarefas, a pessoa que você treinou num emprego anterior, mesmo fora da área.
- Um exemplo pequeno e verdadeiro
- O que você fez quando a pessoa errou
- O que você faria diferente hoje
- Dizer que nunca teve ninguém
- Contar como você era exigente
- Falar da pessoa como um peso
“No meu emprego anterior eu treinei a moça que entrou depois de mim no caixa. Na primeira semana eu perdi a paciência com ela, por um erro que eu mesmo cometia no começo. Percebi no mesmo dia, pedi desculpa, e passei a anotar junto com ela as dúvidas que apareciam. Foi ali que eu entendi a pressão que o meu supervisor tinha comigo.”
“Ainda não. Eu sempre fui o mais novo dos times.”
A resposta fecha a porta de uma pergunta que era um convite. E quem nunca reparou que alguém dependia dele provavelmente já sentou na cadeira sem notar.
práticaLevar para o trabalho
Três situações, da reclamação no corredor ao dia em que alguém passa a depender de você.abrir
O time inteiro está falando mal do chefe, e você está junto
Essa é a conversa mais confortável do trabalho. Todo mundo concorda, ninguém precisa provar nada, e quem decide não está ali para explicar.
- Que separe o que aconteceu do que vocês acham que aconteceu
- Que pergunte o motivo a quem decidiu, antes de concluir
- Que leve a discordância para quem pode mudar a decisão
- Que concorde com tudo que vem de cima
- Que defenda o chefe em tom de sermão
- Que repita a reclamação para quem chegou ontem
“Eu não entendi por que a gente priorizou isso, e queria entender. Tem alguma coisa pesando aí que eu não estou vendo?”
Às vezes a resposta mostra um motivo que você não conhecia. Às vezes mostra que a decisão era ruim mesmo. Nos dois casos você passa a discordar sabendo, e não mais adivinhando.
Pela primeira vez, alguém depende de você
Pode ser a pessoa nova que você vai acompanhar, ou um trabalho que você vai revisar. Essa é uma cadeira pequena, e é a primeira cadeira.
- Que lembre do que te incomodava quando você estava no lugar dela
- Que diga com clareza o que espera, em vez de deixar a pessoa adivinhar
- Que cumpra o que prometeu a ela, inclusive as coisas pequenas
- Que repita com ela o que fizeram com você
- Que seja “legal” e não diga nada difícil
- Promessa vaga, para ganhar tempo
“Eu vou revisar o que você fizer até sexta, e te digo o que achei na segunda de manhã. Se eu atrasar, me cobra.”
O bônus que Danilo prometeu sem dizer o valor começou assim, com uma promessa sem data. Uma promessa com data e com “me cobra” dá à outra pessoa o que ele nunca deu à assistente.
Você se pegou dizendo a frase que criticava
Esse dia vai chegar. Um dia sai da sua boca um “você devia agradecer a oportunidade”, ou um “na minha época era pior”. Danilo só percebeu anos depois, assistindo a um vídeo.
- Que perceba, e diga que percebeu
- Que volte a falar com a pessoa no mesmo dia
- Que mude a decisão, se a frase estava cobrindo uma decisão injusta
- Que se justifique dizendo que a pressão é grande
- Que finja que não disse
- Que se castigue na frente de todo mundo
“Hoje cedo eu te respondi de um jeito que eu mesmo já ouvi e detestei. Desculpa. Vamos conversar de novo sobre o que você pediu.”
Pedir desculpa e voltar à conversa foi o que Danilo acabou fazendo com a equipe. É o mesmo gesto do mestre Tonho, que abriu a reunião da oficina falando do próprio atraso.
O que muda daqui em diante
Os quatro capítulos anteriores olhavam para o que você faz. Este capítulo olha para o que você cobra dos outros, e pergunta se você faria igual. A resposta honesta só aparece no dia em que a cadeira é sua, e esse dia chega em tamanho pequeno muito antes de chegar em tamanho grande.
Ninguém precisa virar chefe para descobrir que tipo de chefe seria. Basta reparar em como trata quem depende de você hoje.