# O jantar e o valor da confiança

**Ninguém confia em quem não conhece, e isso vale dentro de um time**

> Capítulo 4.7 de *Antes do Código*, livro aberto e gratuito de Marcelo Castelo Branco.
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![Quatro pessoas desta mesa se conhecem há anos. A quinta pessoa está ligada à mesa por um fio só.](https://marcelocastelo.io/assets/livros/antes-do-codigo/4-7-um-fio-so.webp)

*Quatro pessoas desta mesa se conhecem há anos. A quinta pessoa está ligada à mesa por um fio só.*

Com este capítulo começa a última parte da seção. A abertura da seção disse que as pessoas fazem três perguntas sobre você, e que a terceira pergunta é “o que eu digo dessa pessoa quando ela não está?”. Os quatro capítulos que faltam tratam dessa terceira pergunta. Este capítulo mostra uma coisa que vem antes de qualquer resposta. Para dizer alguma coisa sobre você, as pessoas precisam conhecer você.

> — Eu não preciso de amigo no trabalho. Eu preciso entregar.
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> — Conversa fiada é perda de tempo.
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> — Eu sou tímido, e isso não devia contar.
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> — Tem gente que entrega menos do que eu, e é sempre essa gente que chamam.

A terceira frase tem razão. Timidez não é defeito, e este capítulo não pede a ninguém que vire uma pessoa extrovertida. A quarta frase é a pergunta que este capítulo responde.

> Ninguém confia em quem não conhece.

## A conta do jantar

A imagem que abre este capítulo mostra uma mesa de jantar vista de cima, com cinco lugares. Quatro lugares estão ligados uns aos outros por vários fios. O quinto lugar está ligado à mesa por um fio só, que é o fio verde. Você está sentado num dos quatro lugares.

Imagine uma noite comum. Você saiu para jantar com um grupo de amigos. A conversa corre solta, com risada e com piada que só o grupo entende. Desta vez, um dos seus amigos levou um conhecido. Você já viu esse conhecido nas redes sociais, e já trocou algumas mensagens com esse conhecido. Só que você nunca almoçou com o conhecido, nunca foi à casa do conhecido, e não sabe de verdade quem o conhecido é.

No fim do jantar, a conta chega à mesa. O conhecido diz: “Poxa, eu esqueci o cartão. Você paga a minha parte? Assim que eu chegar em casa, eu te faço um Pix”.

Você sorri, e por dentro você sente um desconforto. O desconforto não é por causa do dinheiro. Você se pergunta se o conhecido vai pagar mesmo, e você pensa que vai ser chato ter de cobrar depois.

O que tranquiliza você não é o conhecido. O que tranquiliza você é o amigo que trouxe o conhecido. Você confia nesse amigo, e **uma parte dessa confiança passa para o conhecido**. Você pensa que, se o conhecido é amigo do seu amigo, o conhecido deve ser uma boa pessoa.

O jantar mostra como a confiança funciona. As pessoas confiam em quem conhecem de perto. As pessoas não saem procurando a pessoa perfeita para confiar.

## A mesma conta, num time

Leve o jantar para o trabalho. Numa empresa, quem lidera depende do trabalho do time, e cada pessoa do time responde por uma parte do resultado. Quem lidera precisa decidir em quem pode confiar, do mesmo jeito que você decidiu no jantar. Quem lidera se pergunta quem vai entregar, quem avisa quando alguma coisa dá errado, quem pede ajuda e quem desaparece.

A competência técnica importa nessa decisão. Só que, no dia a dia, **o que mais pesa é o quanto as pessoas conhecem você**.

Agora imagine uma pessoa do time que nunca participa das conversas, nunca abre a câmera nas reuniões, evita falar com os colegas, e só aparece quando existe uma coisa urgente para resolver. Essa pessoa pode ser excelente no que faz. Mesmo assim, os colegas hesitam antes de depender dessa pessoa.

Os colegas não hesitam por preconceito. Os colegas hesitam porque a cabeça de todo mundo funciona como a sua cabeça funcionou no jantar. “Eu não conheço essa pessoa direito. Será que eu posso contar com essa pessoa?”

Essa pessoa virou **o conhecido da mesa**. O time respeita o trabalho dessa pessoa, e o time não confia totalmente nessa pessoa.

## Pela tela

No trabalho feito de casa, a convivência não acontece sozinha. No escritório, as pessoas ficam se conhecendo sem querer, no café e no corredor. No trabalho feito de casa, a confiança passa pela tela. A confiança passa pelas mensagens, pelo tom das mensagens, pelo jeito de responder e de participar, e pelos sinais de que você está ali.

Abrir a câmera é um desses sinais, e não é o único sinal. Responder que você viu a mensagem é um sinal. Contar no começo do dia o que você vai fazer é um sinal. Fazer uma pergunta na reunião também é um sinal.

## Quem executa e quem decide

As empresas contratam uma pessoa pelo que a pessoa sabe fazer. As empresas entregam as decisões às pessoas em quem confiam. A confiança não vem de diploma nem de ferramenta. A confiança se constrói como no jantar, de pessoa para pessoa e de conversa em conversa.

O jantar explica também por que uma indicação vale tanto na hora de procurar emprego. A pessoa que indica você faz o papel do amigo em comum. A pessoa que indica você empresta a você uma parte da confiança que a empresa já tem nela.

Cuidar desse lado do trabalho não é politicagem, e não exige que você seja a pessoa mais falante da sala. Cuidar desse lado do trabalho exige que as pessoas consigam ver você e consigam chegar até você.

### Quatro jeitos pequenos de as pessoas conhecerem você

*Sem virar outra pessoa*

Estes quatro hábitos poupam você de ser, daqui a um ano, a pessoa competente em quem ninguém pensa na hora de escolher.

**Responder.** Uma mensagem respondida com “vi, eu faço até quinta” diz ao time que você está ali.

**Contar o que você está fazendo.** Uma frase por dia já basta.

**Perguntar.** Uma pergunta sobre o trabalho de um colega mostra interesse, e ensina alguma coisa a você.

**Aparecer nos momentos comuns.** Os momentos comuns são o café, o almoço e os cinco minutos antes de a reunião começar.

> A técnica coloca você na mesa. A convivência mantém você na mesa.

## Levar para a entrevista

*Três perguntas sobre como você convive com um time.*

A entrevista é o jantar com o conhecido, e desta vez o conhecido é você. Quem entrevista precisa decidir em uma hora se pode confiar em uma pessoa que nunca viu.

### “Como você se dá com as pessoas de um time novo?”

**O avaliador técnico quer ver**

- Que você procura entender o trabalho dos colegas
- Que você descobre a quem perguntar cada coisa
- Que você participa das conversas do time

**O avaliador de pessoas quer ver**

- Que você não precisa ser o centro da conversa
- Que você não se isola
- Que você tem um jeito seu de se aproximar das pessoas

**Boa resposta**

“Eu sou mais quieto, então eu não chego fazendo amizade com todo mundo. O que eu faço é conversar com uma pessoa de cada vez. Nas primeiras semanas eu peço a cada colega que me conte o que faz, e eu almoço com o time quando dá. Em um mês eu já sei a quem perguntar cada coisa, e as pessoas já sabem quem eu sou.”

**Resposta ruim**

“Eu sou bem reservado. Eu prefiro focar no trabalho e deixar o resultado falar por mim.”

Ser reservado não é o problema dessa resposta. O problema é a segunda frase da resposta. **Quem ouve imagina uma pessoa que o time vai respeitar e não vai conhecer**.

### “Como você se faz presente quando trabalha de casa?”

Esta pergunta ficou comum nos últimos anos. Quem entrevista quer saber se vai precisar ir atrás de você para descobrir como o trabalho está.

**O que eles querem saber**

- Se você avisa o que está fazendo, sem ninguém pedir
- Se você responde em tempo razoável
- Se você participa das reuniões, em vez de só assistir

**O que derruba**

- “Eu entrego tudo, então eu não preciso aparecer”
- Dizer que você prefere não ser interrompido
- Nunca ter pensado nesse assunto

**Boa resposta**

“De manhã eu escrevo no canal do time o que eu vou fazer no dia. Quando eu recebo uma mensagem, eu respondo que vi, mesmo que eu só vá resolver mais tarde. Nas reuniões eu abro a câmera quando a conexão deixa, e eu tento fazer pelo menos uma pergunta.”

**Resposta ruim**

“Em casa eu rendo muito mais, porque ninguém me interrompe. Eu desligo tudo e só apareço quando termino.”

Render mais em casa pode ser verdade. Só que, durante o dia inteiro, o time não sabe se essa pessoa está trabalhando, travada ou ausente. **Essa pessoa é o conhecido da mesa**.

### “Quem conhece bem o seu trabalho e poderia falar de você?”

Esta pergunta procura o amigo em comum. Quem entrevista quer saber se alguma pessoa emprestaria confiança a você.

**Boa direção**

- Citar uma pessoa que trabalhou ou estudou com você
- Dizer o que essa pessoa viu você fazer
- Ter avisado essa pessoa de que alguém pode procurar por ela

**Direção ruim**

- Não ter ninguém para citar
- Citar uma pessoa importante que mal conhece você
- Citar só gente da sua família

**Boa resposta**

“O professor que orientou o meu projeto final acompanhou o meu trabalho por seis meses. O professor me viu refazer a parte de cadastro duas vezes, até a parte ficar boa. Uma colega de turma também fez três trabalhos comigo. Eu já avisei os dois de que alguém pode entrar em contato.”

**Resposta ruim**

“Eu sempre trabalhei mais sozinho, então eu não sei dizer quem poderia falar de mim.”

Essa resposta conta, sem querer, a história inteira deste capítulo. A pessoa pode ser ótima no que faz, e ninguém esteve perto o bastante para confirmar.

## Levar para o trabalho

*Três situações: para quem é quieto, para quem trabalha de casa, e para quem nunca é chamado.*

### Você é uma pessoa quieta

Você não precisa deixar de ser uma pessoa quieta. O que precisa existir é algum caminho por onde as pessoas cheguem até você.

**Esperam de você**

- Que você converse com uma pessoa de cada vez
- Que você participe por escrito, se falar em grupo for difícil
- Que você apareça nos momentos comuns, de vez em quando

**Não esperam de você**

- Que você vire a pessoa mais falante da sala
- Que você force piada e conversa
- Que você suma e só apareça com o trabalho pronto

**O que dizer**

“Eu sou mais de ouvir do que de falar em reunião. Se eu ficar quieto, não é desinteresse. Eu costumo mandar as minhas dúvidas por escrito depois da reunião.”

Essa frase resolve metade do problema sozinha. Depois dessa frase, o time sabe como entender o seu silêncio.

### Você trabalha de casa, e o time mal vê você

No escritório, as pessoas veem você chegar, almoçar e ir embora. Em casa, nada disso aparece para ninguém. O time só fica sabendo de você pelo que você escreve e pelo que você diz.

**Esperam de você**

- Que você diga de manhã o que vai fazer no dia
- Que você responda que viu a mensagem
- Que você abra a câmera quando puder, e avise quando não puder

**Não esperam de você**

- Que você fique disponível o dia inteiro
- Que você responda tudo na mesma hora
- Que você conte cada passo do trabalho

**O que dizer**

“Bom dia. Hoje eu sigo na tela de pedidos, e à tarde eu olho o erro do relatório. Se alguém precisar de mim, eu respondo até o fim do dia.”

**Três frases de manhã fazem o time saber que você está ali**, e deixam você trabalhar em paz o resto do dia.

### Chamam sempre a mesma pessoa, e essa pessoa não é você

Esta situação é a quarta frase do começo do capítulo. Dá vontade de concluir que o time é injusto. Antes de chegar a essa conclusão, vale fazer uma pergunta a si mesmo. O time conhece o seu trabalho tanto quanto conhece o trabalho da outra pessoa?

**Esperam de você**

- Que você repare no que a outra pessoa faz que deixa o time à vontade
- Que você se ofereça, em voz alta, para uma tarefa pequena
- Que você pergunte a quem lidera o que falta para chamarem você

**Não esperam de você**

- Que você fale mal da pessoa escolhida
- Que você espere ser descoberto
- Que você conclua que só puxa-saco é chamado

**O que dizer**

“Eu queria participar de um projeto como aquele. O que você precisaria ver em mim para me chamar na próxima vez?”

A resposta pode ser uma habilidade que ainda falta a você. Muitas vezes a resposta é mais simples, e a pessoa que lidera diz que não sabia que você tinha interesse.

## O que muda daqui em diante

**Confiança**

- Antes: Uma coisa que vem só da competência
- Agora: Uma coisa que vem da convivência, somada à competência

**Conversa no café**

- Antes: Perda de tempo
- Agora: O lugar onde as pessoas ficam conhecendo você

**Ser uma pessoa quieta**

- Antes: Um defeito, ou um motivo para sumir
- Agora: Um jeito de ser, que pede outros caminhos para as pessoas chegarem até você

**Trabalhar de casa**

- Antes: Trabalhar sem ser visto
- Agora: Trabalhar mostrando, por escrito, que você está ali

**Uma indicação**

- Antes: Um favor
- Agora: Confiança emprestada por alguém que conhece você

- Responder que você viu a mensagem, mesmo sem resolver na hora
- Contar no começo do dia o que você vai fazer
- Conversar com uma pessoa do time de cada vez
- Aparecer nos momentos comuns, de vez em quando
- Manter contato com quem já viu você trabalhar

As duas primeiras partes desta seção trataram do que você faz e do que você diz. Esta última parte trata do que fica de você na cabeça das outras pessoas. Este capítulo mostrou a primeira condição. **Para falarem bem de você quando você não está, as pessoas precisam ter convivido com você**.

> Você não precisa ser a pessoa mais extrovertida do time. Você precisa ser uma pessoa que o time consegue ver e alcançar.

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*Capítulo 4.7 de **Antes do Código** — O guia para quem quer entender a tecnologia — e não só usá-la.*

*O livro inteiro, de graça: https://marcelocastelo.io/livros/antes-do-codigo*
